segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Uma interpretação do pronunciamento do Prefeito de Barreiras

 Por Indiara de Souza Conceição e Paula Vielmo


No dia 04 de agosto deste ano, quando Barreiras apresentava dados oficiais com mais de 7.000 casos notificados de síndrome gripal, 1.805 casos confirmados de Covid-19, 23 pessoas em internação hospitalar e 33 óbitos, fomos surpreendidas com o pronunciamento do Prefeito Municipal de Barreiras, Zito Barbosa. Surpreendidas, porque, diante de uma situação cada dia mais preocupante, a liderança municipal havia desaparecido do cenário público e a população cobrava manifestação do Prefeito, comum antes da situação piorar. Além disso, nos chamaram atenção os efeitos de sentido (isto é, o(s) discurso(s)) no pronunciamento do Prefeito. Por estarmos em um grupo de estudo sobre Análise de Discurso (AD), resolvemos analisar discursivamente o referido pronunciamento; o resultado, nós o compartilhamos na forma deste texto.

A AD iniciada pelo filósofo e linguista francês Michel Pêcheux se desenvolve através do diálogo entre os seguintes campos do conhecimento: linguística, marxismo e psicanálise, tendo como foco as discursividades, isto é, a análise “das palavras em movimento”, como afirma a professora e pesquisadora pioneira em AD no Brasil, Eni Orlandi. Para a AD, os enunciados que produzimos NUNCA são apenas palavras soltas no mundo; há SEMPRE uma determinação sócio-histórica em toda significação, isto é, os enunciados significam segundo a influência ideológica. Para compreender como essas textualidades se constituem, a AD dispõe o que nos parece como categorias para contextualizar os discursos. Entre essas categorias, selecionamos as seguintes para analisar o pronunciamento: condições de produção, memória, lugar e posição do sujeito.

A condição de produção corresponde ao contexto ao qual o sujeito pertence e as influências que esse contexto pode e exerce na construção do “seu”  discurso. A memória está relacionada ao interdiscurso, isto é, às informações externas que o sujeito internaliza e replica nas situações de comunicação, “inovando e adaptando” o sentido de acordo com sua “necessidade”. E as categorias  de lugar e de posição do sujeito são recrutadas para que se entenda como a subjetividade é histórica, é ideológica, e é determinada pela identificação com o que se chama de formação discursiva. Dito isso, passamos a explicar cada uma dessas categorias a partir do pronunciamento do Prefeito. 

Temos como condição de produção um contexto de silêncio do prefeito diante do aumento de casos de contaminação e óbitos em Barreiras pela doença provocada pelo novo coronavírus, somados ao fato de o pronunciamento dar-se na mesma data em que foi publicado o Decreto Estadual nº 19.893/2020, determinando toque de recolher entre 19h e 5h da manhã, restringindo, assim, a movimentação de pessoas na rua. Ainda é da ordem da condição de produção a filiação do prefeito ao Partido Democratas, oposição histórica ao Partido dos Trabalhadores, ao qual se filia o atual governador, Rui Costa.

O sujeito do discurso é o prefeito Zito Barbosa, cujo perfil traçado advém de dados extraídos do site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE): João Barbosa de Souza Sobrinho, homem pardo, 60 anos de idade, engenheiro civil e casado. Apesar de Barreiras ser o município de nascimento, sua carreira política se desenvolveu no município vizinho: São Desidério, onde foi prefeito por três vezes. Atualmente, ele é filiado ao Democratas (ex-PFL), partido pelo qual foi eleito, sendo que foi prefeito de São Desidério pelo PFL.

Este sujeito está inserido em um contexto de pressão popular por providências para a crise sanitária instalada; por ser ano eleitoral e ser pré-candidato a reeleição; um contexto de valorização de obras como pavimentação asfáltica e inauguração de construções de unidades escolares e postos de saúde, garantidos “mesmo com queda de receita”. A ênfase nas obras remete a um interdiscurso (memória) de anos sem tais atos em nosso município, uma necessidade antiga da população. Ainda, a tentativa de aproximação com a população ao iniciar com “meus amigos e amigas de Barreiras”. Ora, a amizade é "afeição, estima, dedicação recíproca entre pessoas", segundo o Aurélio. O prefeito é nosso amigo? Somos amigas e amigos do prefeito? Que relação deseja estabelecer ao usar tal tratamento?

O pronunciamento compõem um espectro de memória de descrença em representantes políticos, o que se chama de “políticos” no senso comum. É a lembrança de que a prefeitura não está fazendo o suficiente e de que o prefeito, que tanto aparecia nas redes sociais antes do surto de casos, simplesmente desapareceu. Consideramos ser este o motivo da insistência, ao longo do seu pronunciamento, em se afirmar como sujeito não político. É interessante destacar, todavia, que essa negação se faz justamente a partir de um lugar social que é o de político. 

Havia e ainda há um sentimento de descaso frente às ações necessárias para conter a disseminação da doença provocada pelo novo coronavírus, pois a medida mais efetiva é o distanciamento social. Contudo, os locais públicos e privados seguem com aglomerações.

Para reduzir a memória de abandono, o sujeito do discurso expõe uma sequência de medidas de enfrentamento ao coronavírus: contratação de 20 leitos em um hospital privado; transformação do Hospital Municipal Eurico Dutra em um pronto atendimento para casos de contaminação pelo novo coronavírus, com 12 leitos e 02 respiradores; em seguida, fala em 35 leitos. Para as reclamações com a não realização de exames, expressa: parceria com a UFOB, contratação de um laboratório particular, compra de 5000 testes e 20.000 testes rápidos. No fio discursivo, enquanto apresenta “soluções”, revela-se, também, o repasse de recursos públicos para o setor privado da saúde, indicando não haver investimentos suficientes na estrutura municipal e um aprofundamento das políticas de privatização do serviço de saúde, numa aparente ação necessária. 

Informa a contratação de 72 profissionais de saúde e destaca os médicos: são 22; reforça com isso uma memória de poder na equipe de saúde, “a” profissão da saúde. Segue elencando as ações: centro de triagem; central de teleatendimento com ambulância e equipe médica. Não informa sobre o funcionamento ou como obter mais informações; aborda a ampliação no horário de atendimento de duas Unidades Básicas de Saúde: Emily Raquel e Ouro Branco até 22h, sem justificar os motivos dessas duas unidades e não de outras. E anuncia obras, por meio de 12 unidades que serão construídas, além de reformas e ampliações.

Necessário trazer à tona a ênfase do sujeito do discurso em relação à sua fé, mesmo na condição de agente público em um Estado laico: “sou cristão”, diz.  Esse destaque na identidade cristã movimenta o sujeito da sua posição de agente público para “um simples indivíduo de fé que age a favor do povo”, isso quer dizer, semelhante a Jesus Cristo, importante líder religioso reconhecido por sua bondade e amor ao próximo. 

Ao colocar-se como um homem cristão que preza pela vida, destaca um outro lugar social que não o de prefeito. Destacar o lugar de cristão retira a responsabilidade do cargo que ocupa na prefeitura e o permite argumentar que as cobranças feitas pela população são baseadas em perseguição política e ele não responde politicamente, ele fala como cristão, pai e filho, cidadão de bem (ou líder?) que administra pelo bem estar do povo. Por isso, humildemente, ele aceita o decreto emitido pelo governo do estado. Logo, ele fala de igual para igual com a população, não tem motivos para ser responsabilizado pelo aumento dos casos de contaminação e mortes pelo coronavírus. 

Está evidente que o pronunciamento proferido pelo Prefeito Municipal de Barreiras pretende, como efeito de sentido, amenizar as críticas em se tratando das ações envolvendo o combate à propagação da doença provocada pelo novo coronavírus, bem como frisar as obras desenvolvidas neste ano eleitoral. Contudo, a rejeição ao pronunciamento pode ser verificada por meio dos inúmeros comentários nas redes sociais da prefeitura, onde o vídeo foi disponibilizado (link aqui).

Por fim, podemos concluir que o sujeito do discurso não respondeu as cobranças da população, mas gravou um boletim diário com uma série de informações devolvendo a responsabilidade à população; obedecendo um decreto externo para demonstrar ausência de disputa com a vida das pessoas. O pronunciamento não atende a ações necessárias. Ao enunciar “demonstrar a nossa responsabilidade com Barreiras”, o sujeito do discurso afirma que evitar aglomerações é algo que somente as pessoas podem fazer, quando sabemos que não é verdade. São possíveis ações de informação, educação e fiscalização , por exemplo, pela Prefeitura. 

O boletim de 31 de agosto informa 9.713 casos notificados de síndrome gripal, 3.638 casos confirmados de Covid-19, 22 pessoas em internação hospitalar e 63 óbitos

terça-feira, 26 de maio de 2020

129 anos de Barreiras: a espera de liberdade política plena

Por Paula Vielmo


No dia 26 de maio celebramos o aniversário de emancipação politica do município de Barreiras, ou seja, 129 anos atrás, nos tornamos independentes do território de Angical, sendo que já havíamos pertencido a Cotegipe e, antes, Pernambuco. Barreiras foi elevada a município, ocupando atualmente a posição central na região Oeste da Bahia.

Com cerca de 155 mil habitantes, é permeada por muitos rios, sendo rica em água, dos bens naturais mais preciosos. Todavia, as margens dos rios, privatizadas, dificultam o acesso ao que temos em abundância e está restrito à poucos que compraram seu pedaço de terra na beira do rio. Neste contexto hídrico, destaca-se o Rio Grande, principal afluente da margem esquerda do Velho Chico. Além disso, Barreiras é literalmente atravessada por três rodovias federais: BR 020, BR 135 e BR 242, sendo o principal entroncamento rodoviário da região.

A posição de entroncamento me leva ao fato de que, apesar de ser polo regional e ter grande população, Barreiras é conhecida por ser um lugar de passagem. Passagens que na maioria das vezes significam apenas benefício de quem utiliza do município e o vê como trampolim para atingir outros objetivos. Isto faz com que parcela significativa das pessoas não se envolva com as questões locais.

Este aniversário ocorre durante a pandemia do novo coronavírus e inúmeros casos da doença Covid-19 começam a aparecer no município. Casos que provavelmente poderiam ser evitados se o chefe do poder executivo tivesse adotado medidas que não estimulassem as pessoas à saírem de casa. O comércio foi reaberto a partir de 06 de abril  quando havia um caso confirmado e em 25/05 já são 37 casos confirmados. As ruas movimentadas também demonstram o baixo nível de consciência local.

É forte uma concepção desenvolvimentista permeando a construção local, seja pela imprensa, escolas, políticos tradicionais ou empresários. Não raro o desenvolvimento é atribuído ao grande agronegócio, à empresas, indústrias e concreto. Aliás, Barreiras é um lugar muito quente, que não morremos tostadas/os porque tem muita água ao redor, digo sempre, pois se dependesse da lógica do asfalto sequer estaríamos respirando mais. Há uma política de asfaltamento em detrimento de arborização, por exemplo.

No entanto, contraditoriamente, a presença de buracos marcou por muito tempo a paisagem do município e foi uma das principais reivindicações, facilmente atendida pelo atual prefeito, fato que lhe rende ótimas avaliações da população desatenta frente aos buracos sociais profundos e aos bairros periféricos, totalmente abandonados.

As ações de asfaltamento do centro da cidade não são suficientes para esconder os enormes buracos sociais que acompanham a existência do município, tão desamparado por sucessivas gestões. A posição de um dos melhores Índices de Desenvolvimento Humano da Bahia não corresponde à realidade local. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) mede o nível de desenvolvimento humano municipal tendo como critérios indicadores de educação, longevidade e renda. Quem conhece Barreiras sabe: não corresponde à realidade local. Isso não significa que as belezuras e momentos marcantes que todas/os vivemos por lá sejam apagados, mas apenas que precisamos perceber que nem tudo são espinhos nem tampouco só flores.

É necessário dizer que a educação pública deixa a desejar em termos de uma formação humana integral, expressa por meio de uma cultura local absurdamente passiva, individualista, racista, machista e homofóbica, com valores distantes de valores humanos elevados. Os índices de violência, sobretudo contra as mulheres, seja no âmbito doméstico ou de estupros e assédios, representa o quão abandonada são as políticas públicas, seja no espaço urbano ou rural.

Bares, farmácias e igrejas ocupam todo o território e o único teatro municipal (Centro Cultural, a eterna “Casa da Cultura”) é ocupado como centro de convenções para eventos burocráticos. Isso me diz muito e à você? No entanto, temos artistas criativos que atravessam os tempos e resistem ao abandono das políticas públicas, mantendo sua arte, nossa arte, mas que poderia ser valorizada, portanto, ser um processo menos sofrido.

A saúde é loteada entre os políticos que delegam as vagas para o seu eleitorado ou serve de trampolim para futuras candidaturas, como a história local mostra, repetidamente. A saúde está longe de ser um direito e está privatizada por meio da terceirização de consultas e exames. O mercado da saúde em Barreiras cresce tanto quanto elege médicas/os para cargos políticos. A saúde é tratada como lucrativa moeda de troca. E quando o Centro de Saúde da Criança Emilly Raquel foi fechado, vi pela primeira vez um ato de rua organizado por mulheres e repleto de mulheres-mães e crianças e mesmo meio ingênuo, foi lindo de viver aquele momento em defesa de direitos fundamentais.

O transporte municipal está sob o domínio de uma empresa há décadas. A tarifa ao custo de R$3,45 não se justifica diante de curtos trajetos e veículos sucateados. Quem conhece e usa, sabe do que estou falando. Por muito tempo foi uma pauta prioritária dentre minhas causas e, precisa ser, porque após décadas não percebemos melhorias, muito pelo contrário. A naturalização do inaceitável parece compor a paisagem e um novo movimento recolocando o transporte coletivo municipal no centro das lutas, precisa emergir. Além de reivindicar por ciclovias e incentivar mais ainda o uso de bikes como transporte em uma cidade plana (mas quente rs). Arborização precisa vir junto.

Tantas instituições educacionais não garantem que tenhamos sequer um veículo de comunicação comprometido eticamente com a produção de notícias qualificadas e a existência de movimentos sociais é quase inexistente e quando existe, bastante frágil. Interesses politiqueiros rondam a maioria das iniciativas, reproduzindo o ciclo de individualismo e passividade. É assustador. Desanimador, sobretudo quando você é uma voz destoante neste contexto. Mas mesmo assim, há iniciativas que surgem aqui e acolá, o que nos falta é consistência.

Os poderes executivo e legislativo possuem uma relação imoral, pelo fato de se misturarem de tal modo que suas funções se perdem. O Executivo atual faz do legislativo seu servo mais do que nas gestões anteriores e, literalmente, de acordo com o que podemos verificar no site da Câmara (texto em construção), quem legisla em Barreiras é o prefeito. Além disso, a formação de quem ocupa tais cargos é frágil, sobretudo em termos éticos humanos, fato que pode ser atestado mediante as ações disponíveis no site da Câmara.

Violações de Direitos Humanos estão presentes em tudo o que foi relatado acima, além de uma cultura de mercantilização das pessoas, prostituição, desumanização. Poderia ser diferente num contexto como esse? É necessário que seja!

Porém, se o cenário é verdadeiramente desanimador, também são as pequenas e contínuas formas de resistência adotadas, aos poucos, pela população. Vez ou outra, essas individualidades rompem em direção ao coletivo e temos ações importantes, mesmo que raras. Além disso, urge formação qualificada de nosso povo, para que tenha condições de perceber e analisar a realidade, para intervir com vistas à transformá-la e não apenas se adaptar ou querer ser o novo sacana da vez, atrás de uma nova atitude que é mais arcaica que tudo.

"Uma cidade triste é fácil de ser corrompida! Uma cidade triste é fácil ser manipulada!" diz trecho da música Revólver da Flaira Ferro. Lembrei de Barreiras desde a primeira vez que ouvi, não porque ache que Barreiras seja triste, mas porque é fácil de ser corrompida e manipulada. Talvez precisemos estimular e desenvolver mais a alegria para mudar esse contexto, uma alegria conjugada com criticidade.

Apesar de todas essas situações e condições desfavoráveis, Barreiras agrega uma infinidade de pessoas com algum grau de consciência coletiva, mas que insistem em se manter dispersas. Assim, creio que o maior desafio e o melhor presente que podemos dar à Barreiras, em retribuição ao carinho com que acolhe e nos nutre de várias maneiras, é conseguirmos nos organizar coletivamente para enfrentar todas essas situações e muitas outras, que se repetem e precisam ser paralisadas.

Vida longa à capital do velho oeste baiano!

domingo, 10 de maio de 2020

Precisamos falar sobre maternidade compulsória

Por Paula Vielmo

Precisamos falar sobre maternidade compulsória - Bem Blogado

Neste dia das mães quero lhes presentear com uma breve reflexão sobre maternidade compulsória. 

Pensar a maternidade como compulsória, ou seja, como algo obrigatório é uma reflexão pertinente mais ainda em nossos tempos, porque já há muita produção e luta envolvendo a questão, bem como a maternidade tem gerado sofrimento em muitas mulheres por ser obrigatória. Aqui não sou contrária a maternidade, mas objetivo refletir criticamente sobre a escolha de ter ou não filhas/os, bem como a garantia dessa escolha, independente de qual seja. Ainda, a necessidade permanente de desromantizar a maternidade enquanto inata, instintiva, necessária e, percebê-la como uma construção social, como quase tudo em nossa sociedade.

Começo afirmando que falo do lugar de quem não é nem deseja ser mãe, o que não me impede de pensar sobre. Em seguida, afirmo que as mulheres que desejam ser mães, devem ter essa escolha garantida com dignidade, o que não ocorre em nossos tempos. A maternidade é uma invenção. Mas nem sempre foi assim. A maternidade como a conhecemos em nossos dias foi rabiscada no século XIX, não por coincidência, quando o modo de produção capitalista se consolida, naturalizando a produção de filhas/os, que são produtos das mulheres. 

É indiscutível que temos aparelho reprodutor, mas não significa que tenhamos que parir. Comassim? É isso mesmo, simples desse jeito. Se te provocou espanto, pare e pense sobre isso. Não pensar sobre tudo o que está dado é um grande problema, porque as coisas parecem naturais quando elas não são, estão sendo. Naturalizar que precisa reproduzir e que "ser mãe" é aceitar todo tipo de situação é conveniente.

Desejar não ter filhas/os é transformado em um problema porque somos nós, as mulheres, que reproduzimos a força de trabalho, somos nós que reproduzimos as pessoas para trabalharem. O modo de produção capitalista percebe as mulheres como reprodutoras de força de trabalho, por isso, parir na sociedade capitalista precisa ser algo compulsório. Pensar sobre significa dar uma alfinetada no sistema rs

No entanto, desejar ter filhas/os não garante dignidade no processo, seja pela sobrecarga de atividades, seja pelas condições precárias do sistema de saúde, seja pela elevada violência obstétrica, pelo desemprego, pela ausência plena de direitos. O sistema capitalista quer mão de obra aos montes, mas não garante que as mulheres sejam bem tratadas para isso, ele faz com que todos esses maus tratos sejam considerados "normais".

Converse com mulheres que gestaram e pariram e isso poderá ficar estampado na sua cara, mas é mais comum que quase ninguém repare, porque parece "que sempre foi assim". Essa ideia atrapalha bastante, porque parece que não tem jeito e que o amor incondicional necessita passar por todas as dificuldades, porque "ser mãe" significa renunciar à sua vida em função da vida da/o filha/o.

Mãe nem é considerada uma pessoa, ela é quase algo sobrenatural. Assim é o desenho, mas isso só prejudica as mulheres que querem ter filhas/os. Na maternidade, as mulheres gestantes não tem nomes, elas são chamadas de "mãe"; nas escolas, essas mulheres nem tem nome, elas são chamadas de mãe. A mãe anula a identidade de ser mulher. Há quem ao se apresentar mal diz o nome e já alega no conjunto de características, "ser mãe". Ser mãe é algo divino e construído socialmente, exemplo maior é como as meninas são adaptadas desde cedo com essa função por meio de bonecas que simulam bebês e outros aparatos. Ninguém nasce gostando de rosa e de boneca, somos ensinadas, condicionadas à isso.

É preciso garantir, como já afirmei, que as mulheres que desejem ter filhas/os possam fazê-los de modo decente, porque as condições estão bem indecentes. Além de ser violentada no processo de gestar e parir, essas mulheres passam por insegurança para garantir alimentação, moradia, educação, saúde, lazer, cultura para as/os filhas/os. Também, pela própria sobrevivência destas/es, sobretudo quando são mães negras periféricas, tamanho o genocídio das/os filhas/os negros. Estive em um enterro de um jovem e a mulher-mãe estava numa situação tão dolorosa que é impossível descrever aquela situação, foi profundamente marcante. A maternidade é idealizada, porque a vida real é dura viu!

Para aquelas mulheres que não desejam ter filhos/as, a pressão social é imensa, desde a afirmação de que seria incompleta até que seria mal amada. Ora, a quem interessa pintar essas mulheres de tal forma?

O aborto como proibição legal passa pela maternidade compulsória, pois a mulher que interrompe uma gestação rompe com a construção social de maternidade, ela não se sente obrigada a ter filhas/os, mesmo que já tenha. A Pesquisa Nacional de Aborto (2010 e 2016) aponta que a maior parte das mulheres que abortam no país já tem filhas/os.

Para superar a maternidade compulsória, precisamos pensar e falar sobre isso. Problematizar, como nos ensinou Paulo Freire. Por fim, indico três leituras que podem contribuir com essas reflexões e me influenciaram na elaboração deste texto:


Ah, lembre de deixar um comentário, ter feedback ajuda bastante a continuar :)

terça-feira, 5 de maio de 2020

Conflitos entre gênero e raça? A participação de Thelma e Babu no BBB 2020

O Blog recebe com muita felicidade, este artigo de opinião da minha amiga querida Indiara Souza (abraçooooo), que compartilhou conosco reflexões importantes envolvendo a falsa disputa entre gênero e raça no BBB 20. Leiam e deixem comentários, porque ela está estreando! E que texto, minha gente!


                                                                                                                  Por Indiara Souza*

Famosos e anônimos apontam atitudes racistas de brothers com Babu ...O reality show Big Brother Brasil apresentou, nesse ano de 2020, uma edição que, para muitos espectadores, foi considerada histórica. Em sua vigésima exibição, o reality teve em seu elenco duas pessoas negras: Babu Santana, ator convidado, e Thelma Assis, médica, inscrita selecionada.
Desde o primeiro contato na casa, Thelma e Babu comentaram sobre a importância de ambos naquele espaço, para compartilhar experiências semelhantes, no que diz respeito ao debate racial. A partir disso, surgiu nas redes sociais uma euforia, principalmente por parte das pessoas negras, que enxergaram em Babu e Thelma representação tão potente.
O BBB 20 obteve destaque também por ter sido composto por alguns homens de caráter duvidoso e questionável. Logo nas primeiras semanas do programa houve uma repulsa por parte do público direcionada a esses participantes. Assim, ocorreram as eliminações do jogo e, consequentemente, os homens começaram a sair e as aproximações por afinidade começaram.
Babu teve facilidade em dialogar com os homens mais criticados da edição e Thelma com uma colega de profissão que, no momento, era bem avaliada pelos espectadores. É nesse contexto de escolhas ou afinidades distintas que destaco algumas percepções sobre o debate nas redes sociais.
Desde o primeiro paredão que Babu enfrentou, ele optou por mencionar sua história e as dificuldades enfrentadas; Thelma escolheu se apresentar como um exemplo de superação, mulher negra que foi adotada na infância, de família pobre, teve que criar oportunidades para conseguir estudar. No seu canal no Youtube, ela conta a dificuldade que enfrentou até se tornar uma médica e os comportamentos racistas e sexistas que ainda sofre, atuando na área da saúde.
A diferença do discurso da Thelma e do Babu no programa foi: Babu mencionava as dificuldades financeiras que tinha deixado aqui fora e como era preterido por outros atores "padrão". Thelma exigia reconhecimento por sua personalidade e coerência. Destaco mais uma vez que minha intenção não é questionar a empatia do público por Babu, mas sim pontuar a maneira como a sociedade lida com uma mulher preta que “não deita para ninguém”, como diz o ditado popular.
Babu além de manter relação muito próxima de afeto com homens brancos extremamente machistas e homofóbicos, também sorriu das falas agressivas dos amigos e fez alguns comentários como: “se ela dança seduzindo assim ta pedindo, não adianta reclamar depois” e “aquele viadinho”, entre outros. Ele levantou discussões dentro da casa, que refletiram nas redes socias, uma delas foi como é negativo se referir a uma pessoa negra chamando a mesma de negra, afirmou que somente no Brasil isso é aceitável. Como estamos todxs passíveis a equívocos, alguns militantes o defenderam, com o argumento de que essa pode ser uma visão pessoal.
Alguns poucos posicionamentos contrários a essa afirmação me trouxe a memória um artigo com o tema “Quem tem medo da palavra negro”, escrito por Cuti e publicado na revista Matriz, em 2010. Cuti afirma que ao usarmos a palavra negrx, estamos impedindo que esqueçam toda carga semântica que ela carrega, a história não permite que nos esqueçamos de como a população negra foi duramente escravizada durante séculos, exatamente por serem NEGRXS. Assim, nos afirmar negras e negros também nos remete à dívida histórica, a resistência antirracista do nosso povo. A tentativa de excluir essa palavra do nosso vocabulário não é algo inocente, é mais uma atividade colonizadora com intuito de nos fazer ignorar tamanha crueldade.
Entre essas discordâncias, nas redes sociais, o que predominou foram diversas páginas e pessoas que se afirmam como militantes, apresentando Babu como um professor. Entendo essa afirmação um tanto prejudicial pois, deslegitima profissionais e pesquisadorxs que se dedicam em apresentar uma escrita negra coerente com dados comprovados. E por que essa reflexão? Porque essas mesmas pessoas defenderam Babu das suas falas machistas e homofóbicas com o seguinte comentário “é uma questão estrutural, Babu é um cara do povão”. Esse mesmo homem do povão também ganhou duas vezes o prêmio nacional de maior destaque “Grande Otelo” de melhor ator.
Essas premiações também fazem parte da carreira de um homem que fez mais de 40 trabalhos, incluindo novelas e participações no cinema, etc. Com isso, penso que diferente de muitas outras pessoas negras, Babu está em espaços que outros negros não têm acesso. Thelma precisou se inscrever para participar do BBB, Babu foi convidado. Estudar sobre aquilo que ele afirma defender não é algo difícil e distante da realidade dele, ignorar isso é um tanto irresponsável; quando exigem uma postura extremamente personalizada de uma mulher negra, que foi o caso da Thelma.
BBB20: Prior pede para Babu votar em Thelma, ator nega e irrita ...

Todas as vezes que iniciava o debate sobre questões raciais no reality, Thelma e Babu apresentavam suas vivências e considerações, mas somente Babu recebeu o maior destaque e apoio. Babu foi defendido quando apoiou seus amigos machistas e justificou que a postura dos mesmos era algo “comportamental”. Ele afirmava que não votaria em Thelma enquanto tivesse outras opções, desde que essa outra opção não fosse seu amigo Prior (acusado de estupro, após a saída do reality), agressivo com ações e palavras. Thelma também afirmou que não votaria em Babu tendo outras opções, opções essas que não fossem suas duas amigas. Thelma defendeu Babu quando insinuaram medo dele e partiu para o enfrentamento por não votar nele. Por isso, recebeu o castigo do monstro (uma espécie de "prenda", em consequência de uma prova, que premia o vencedor com um almoço e ainda garante o direito a levar dois participantes mais próximos) e o distanciamento de algumas pessoas que ela tinha muito carinho.
Em contrapartida, foi insultada por um amigo do Babu afirmando que não tinha o que discutir com Thelma, pois ele “tinha berço”. Essa discussão aconteceu literalmente na frente do Babu e ele não pronunciou uma única palavra para defender a mulher negra. Mas o mesmo Babu afirmou para um homem branco que Thelma havia escolhido a casa grande, apenas por ter aceitado o afeto de mulheres brancas. Em nenhum momento Babu foi julgado por isso, Thelma foi extremamente julgada quando optou por não votar em sua amiga sendo rotulada como “chaveirinho de mulher branca”, sua página foi duramente criticada, enquanto a página do Babu reproduziu o mesmo comportamento do Babu fora da casa chamando Thelma de mucama: termo usado no período escravocrata, referente à negra escrava que realizava as obrigações domésticas e também era ama de leite dos filhos dos senhores. Mais uma vez, a militância permaneceu em silêncio.
O argumento de que Thelma priorizou gênero ao invés de raça, como fez Babu, é inválido quando analisamos as defesas dele para seus amigos. Assim é nítida a solidão da mulher negra na sociedade, pois para muitas pessoas o correto seria Thelma abrir mão do afeto e lealdade oferecidos a ela, para defender um homem negro, que optou também por não a priorizar. Thelma foi criminalizada por usufruir de afeto. Esses acontecimentos me fazem concordar com a seguinte afirmação feita por minha amiga Beatriz Silveira: “existem privilégios dentro dos próprios movimentos, digo, no movimento negro nitidamente é o homem negro o privilegiado, no feminismo, a mulher branca”.
Nesse sentido, relembro a afirmação feita por Chimamanda Adichie, em Sejamos Todos Feministas (2016) “não é fácil conversar sobre a questão de gênero”, repensar nosso comportamento dentro dos próprios movimentos é necessário e diversas vezes não nos atentamos para isso. Entender que Thelma está em um lugar de privilégio em relação ao Babu é injusto, pois ambos frequentam espaços consequentes das escolhas profissionais. Thelma não deixa de sofrer racismo e misoginia por ser médica, a exemplo as injustas críticas direcionadas a ela no período do reality.
Thelma, até o último paredão, foi desacreditada ou tida como arrogante, apenas por não aceitar ser feita de boba ou diminuída. E me assusta a militância ignorar esses fatos, quando no próprio jogo ela sempre fazia provas com o Babu e ao perder uma dessas provas ele afirmou ter perdido porque “ela era lenta”, e quando a mesma venceu uma prova de resistência foi desmerecida dentro do próprio reality. Foi necessário brigar pelo reconhecimento, não houve comoção e sim termos como “ficou soberba, arrogante”. E quando o assunto era Babu, surgia textão nas redes sociais e muita emoção por ter um homem negro sendo injustiçado.
A minha reflexão não se baseia em ignorar a trajetória do Babu, mas sim de questionar como o homem, incluindo homens negros, mantém seus privilégios, sem que a sociedade faça uma reflexão. Antes mesmo de entrar no BBB Thelma expôs no seu canal sobre as diversas situações de racismo sofridas por ela, e em nenhum momento foi defendida como “dona e proprietária da palavra”, afinal, ela não agiu conforme o perfil de mulher negra que a “militância” impôs na internet. Para a mulher negra existe um perfil para que tenham empatia, para o homem, basta que ele apresente o mínimo discurso “bonitinho” para receber aplausos e honras.
Adichie (2019), em seu livro O perigo da história única, reflete acerca das relações de poder e como isso pode ser definitivo na história de um sujeito. Babu, sendo homem negro, obviamente está acima das mulheres negras na pirâmide social, seu discurso se estabelece e é defendido sem que haja resistência. Thelma, mulher negra que se encontra na base da pirâmide, precisa gritar para que seja notada, e talvez ouvida. Errar é inadmissível para uma mulher negra, para o homem negro há uma justificativa estrutural acerca do machismo e racismo, como se a mulher negra não fosse alvo de ambas crueldades.
A partir dessa insensibilidade direcionada à mulher negra, podemos relembrar a necessidade da visão interseccional teorizada por Kimberlé Crenshaw, que é fundamental no movimento feminista. Uma mulher negra não tem a vantagem de vivenciar apenas questões raciais, ela está em um lugar vulnerável, que tende a ser subalternizado, por experienciar gênero e raça, cruelmente, ao mesmo tempo. Ela não pode eleger uma opressão para lutar, precisa articular para se posicionar e resistir às diversas opressões. Assim, nota-se a importância de reconhecer o lugar social que os homens negros ocupam, para não perpetuar a invisibilidade na vida e luta das mulheres negras.
Durante os 98 dias do BBB tentaram criar uma história sobre a trajetória e escolhas da Thelma. Ao final, ela provou para todxs como a trajetória de uma mulher negra tende a ser solitária e difícil. Mas partir para o enfrentamento ainda é a melhor escolha quando concluímos um ciclo, entendendo que foi mérito único e exclusivo da nossa persistência e ousadia. 














* Indiara Souza, essa lindeza sabida, é graduanda do curso de Letras - Língua e Literaturas de Língua Portuguesa, na Universidade do Estado da Bahia, Campus IX.

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Depois de 2 anos: voltei!

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Por Paula Vielmo

Último dia do ano de 2019 e constato que não escrevo no meu blog querido desde maio de 2017, portanto, mais de dois anos atrás, mas cá estou eu, de volta.

Por algum motivo que não sei qual, tenho sentido falta de escrever por aqui, de compartilhar ideias de modo mais sistematizado e aprofundado do que apenas pelas postagens rápidas em redes sociais, também muito mais efêmeras.

Em que ano comecei? Não lembro, mas recorro ao arquivo: 2008. Não lembrava nem a senha, que "u ó" rs. Nossa, mais de uma década! Ele fez dez anos e eu nem vi...está a caminho dos 12, a ser completos em maio de 2020, uma nova década que começa. 

Leio "sobre o blog" e me encanto com as palavras. É bom reler o que você escreveu tempos atrás e se reconhecer nas palavras, assim como é bom perceber as mudanças. Mudar é bom e manter sua essência também e olha que não me refiro à essência como algo inato, natural, que nasce com a gente, mas como aquilo que caracteriza o nosso ser.

Escrever no blog e não apenas artigos, ensaios, relatos de experiências e a dissertação veio com força! DESEJO de escrever, que coisa interessante. E o desejo é arrebatador, por isso estou aqui, executando o desejo de voltar a escrever e espero que hajam pessoas interessadas em ler e em interagir.

Na dúvida, vou tentar! 

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Primeiro de Maio de 2017


Por Paula Vielmo

O 1º de maio é o Dia da Trabalhadora e do Trabalhador, data que reconhece a importância de quem vive do trabalho e que mantém a produção.

Em 2017, no Brasil, a data está cercada dos últimos acontecimentos: aprovação da terceirização, aprovação da Reforma Trabalhista à toque de caixa e de possível aprovação da Reforma da Previdência, ainda em maio.

Parece surreal, mas é real. A imensa maioria dos Deputados e Senadores, envolvidos em casos de corrupção, estão votando pela retirada de direitos da classe trabalhadora.

Depois de longos 13 anos de adormecimento de parcela considerável dos Movimentos Sociais, durante os governos petistas, a classe trabalhadora começa a reagir de maneira resistente aos ataques em curso, que contam com um grande aliado: a desinformação.

Sabemos que o conhecimento é um antídoto para a alienação e que o governo ilegítimo de Temer busca aprovar todas essas reformas sem dialogar com a sociedade, fato que tem levantado posições contrárias de setores conservadores como a OAB e CNBB.

Mas ao contrário dessa conjuntura que nos massacra, TEMOS O QUE CELEBRAR! Na última sexta-feira, milhões de trabalhadores/as brasileiros/as foram às ruas protestar contra as reformas ou quem não foi às ruas, deixou de ir ao trabalho, resultando na MAIOR GREVE GERAL na história do nosso país. 100 anos depois da PRIMEIRA greve geral, temos que CELEBRAR a força da classe trabalhadora, que fortalece o processo de organização.

Vamos renovar a nossa crença na possibilidade de mudança, porque só a luta muda a vida, ou como nos ensinou Rosa Luxemburgo “quem não se movimenta, não sente as correntes que o prendem”.

Por fim, um velho conselho de Marx e Engels: Trabalhadores/as, uni-vos!

sábado, 29 de abril de 2017

Mulheres na Democracia

Por Paula Vielmo


Texto preparado para a fala na mesa redonda na Tarde da Democracia, promovida pela Pastoral da Juventude no dia 22 de abril de 2017, em Barreiras/Bahia.



Boa tarde a todas e todos. Quero agradecer a confiança do convite, feito pela PJ por Alana Bagano. A parceria com a PJ é antiga, dos tempos em que eu era jovem e espero contribuir com as reflexões sobre o tema que me foi proposto. Aliás, gostaria de refazer o tema para o plural: Mulheres na democracia. O plural é muito importante porque significa compreender que não existe uma mulher universal, única, mas uma diversidade, portanto, mulheres.

Para o dicionário Aurélio, democracia é o “governo em que o povo exerce a soberania, direta ou indiretamente”. Para o Dicionário Houaiss é “sistema comprometido com a igualdade ou a distribuição igualitária de poder”. Como as mulheres são parte do povo e estão excluídas do processo democrático, logo, não temos uma democracia plena, mas em processo de construção.

O parágrafo único do Art. 1º da Constituição Cidadã de 1988 diz que: “Todo poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição”. A democracia brasileira não é direta, mas representativa, exercida através da eleição de representantes. Por isso, focarei na participação das mulheres neste modelo de democracia, mas defendo que avancemos para uma democracia participativa, direta, onde cada pessoa tenha consciência e que coletivamente, possamos fazer as transformações desejadas.

Durante metade do século XIX e início do século XX, as mulheres em todo o mundo lutaram pelo direito ao voto, conhecido como movimento sufragista. No Brasil, apenas em 1932 (portanto, uma senhora de 85 anos) as mulheres conquistam o direito ao voto. Todavia, votar não significou mais mulheres nos espaços de poder eletivos.

O processo de redemocratização do país coincide com a adesão do movimento feminista pela luta no terreno institucional a partir de 1970. A luta de muitas mulheres e da bancada feminina da Câmara garantiu que inúmeros direitos para as mulheres fossem incluídos na Constituição Federal de 1988. No entanto, o cenário ainda hoje no Brasil não é democrático para as mulheres.

Segundo dados do IBGE (2014), nós, mulheres, somos 51,6% da população brasileira; Segundo o Tribunal Superior Eleitoral fomos 53% do eleitorado nas eleições de 2016. Ou seja, somos maioria! No entanto, nós mulheres, somos sub-representadas, ou seja, há bem poucas mulheres na democracia representativa brasileira. Poucas são as mulheres eleitas para atuar nos Poderes Legislativo ou Executivo e poucas estão no Judiciário.

Mas por que temos tão poucas mulheres nos espaços de poder? Para compreender essa questão, é preciso compreender a estrutura social. Assim, temos um sistema sustentado na exploração dos mais pobres e do meio ambiente pelos mais ricos (capitalismo), a sobreposição de uma raça (branca), um padrão de sexualidade (heterossexual) e de dominação masculina (patriarcado).

É preciso reconhecer que, historicamente, aos homens foram dedicados os espaços públicos, portanto, da política, e às mulheres os espaços privados (lar). Assim, os homens são responsáveis socialmente pelo trabalho produtivo e as mulheres pelo trabalho reprodutivo. A partir dessa divisão, logo entende-se que a política, como espaço público, é considerado inadequado para as mulheres. Por isso, é compreensível que as mulheres sejam mais tímidas, tenham medo de falar em público, de falar no microfone, porque são espaços e instrumentos que representam o público. Também, por ser um espaço masculino, não estimula a participação das mulheres. Além disso, o acumulo das jornadas de trabalho dificultam a participação das mulheres, que estão cuidando da casa e dos/as filhos/as quando não estão em horário de trabalho remunerado.

Cientes disso, podemos ir rompendo com essa lógica, mas ela ainda é bastante presente na sociedade brasileira, tanto que foi preciso ter uma lei para que as mulheres pudessem ocupar os espaços políticos. Em 1997 foi inserido na lei eleitoral a cota de gênero de 30%. No entanto, apenas em 2009 alcançou caráter obrigatório, tendo em vista que os Partidos Políticos continuavam sem estimular a participação das mulheres como candidatas.

No legislativo brasileiro as mulheres ocupam apenas 45 das 513 vagas de Deputadas Federais, são 11 mulheres dentre as 81 vagas no Senado, são 07 Deputadas Estaduais dentre 63 na Assembleia Legislativa da Bahia e 5 vereadoras em Barreiras dentre 19. Os dados mostram que estamos distante da democracia, pois apesar de sermos maioria da população e do eleitorado, somos minoria representativa, o que implica em uma sub-representação.

No Poder Executivo, a situação piora: em 2016 foram eleitas menos mulheres prefeitas do que em 2012, sendo hoje apenas 641 mulheres (11,57%) prefeitas e 4.898 prefeitos (88,43%); Nas eleições de 2014, apenas Roraima elegeu uma governadora. Até hoje apenas 01 mulher chegou ao posto máximo do país (presidência) e 01 foi eleita prefeita de Barreiras.

No entanto, é preciso prestar muita atenção a duas questões:
    1)Não basta ser mulher, é preciso ter compromisso com a causa das mulheres ampliação de direitos sociais;
     2) Quem são as mulheres que são eleitas? São mulheres negras? São mulheres indígenas? São mulheres trabalhadoras? São camponesas? São mulheres progressistas?

Porém, a democracia não está restrita aos espaços de poder instituídos. Democracia para as mulheres perpassa por oportunidades de acesso e desenvolvimento na educação e na cultura, oportunidades de acesso à trabalho e mesmos salários, possibilidades de atuação nos partidos políticos e nos governos, divisão do trabalho doméstico e autonomia sobre o próprio corpo, portanto, muito caminho a percorrer.

A Agenda 2030 da ONU, estabelece 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e 169 metas. O objetivo 5 busca “alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas” e a meta 5.5. almeja “garantir a participação plena e efetiva das mulheres e a igualdade de oportunidades para a liderança em todos os níveis de tomada de decisão na vida política, econômica e pública”.

Focando no objetivo desta Semana da Cidadania que é “fazer com que a juventude reflita mais profundamente, em grupo, algumas ações presentes em seu cotidiano, convidando-a a se organizar em torno de projetos práticos, com reflexos na sociedade, visando a transformação social, em comunhão com a Igreja e outros organismos da sociedade civil”, sugiro como ações:

   1)  Que a PJ estimule o debate sobre a participação das mulheres, promovendo reflexões e mudança de visão de mundo;
      2) Que a PJ avalie internamente a participação das mulheres nas coordenações, verificando se os cargos ocupados estão majoritariamente restritos à secretariado, tesouraria e organização de eventos, reforçando os papeis tradicionais das mulheres de organização e cuidado;
   3)Que a PJ estimule as jovens mulheres a se expressarem e ocuparem os espaços de fala nas atividades.

Por fim, na próxima sexta-feira, 28 de abril, teremos a GREVE GERAL, contra a Reforma da Previdência, a Reforma Trabalhista e a Terceirização, que retira direitos sociais conquistados historicamente, e prejudica de maneira especial as mulheres, pois busca igualar o tempo de aposentadoria, desconsiderando as várias jornadas de trabalho e precariza o trabalho feminino, pois as mulheres já recebem salários em média 30% a menos do que os homens e são maioria no trabalho informal, principalmente as mulheres negras.


Para concluir, agradeço o espaço, com a expectativa de ter contribuído e alcançado o tema que me foi proposto, bem como almejo que encarem o desafio de ampliação da participação das mulheres como uma causa não das mulheres, mas de cada pessoa que acredita que a democracia como soberania popular perpassa pela incorporação das minorias sociais como participantes ativos, dentre os quais temos as mulheres em sua complexidade e diversidade, como maioria do povo que merece e precisa participar e ter direito a isso, para que de fato aconteça a democracia. Obrigada!

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Retrocesso na Câmara Municipal de Barreiras: o que esperar a partir de 2017?

Por Paula Vielmo


Distante de termos qualquer mudança política em relação aos 19 vereadores eleitos para o mandato 2017-2020, considero que tivemos  um retrocesso na composição da Câmara Municipal de Barreiras, cujo perfil a partir dos eleitos ficou ainda mais conservadora, tendo em vista a reeleição de 9 vereadores, dentro os quais alguns de posturas reacionárias ao extremo, como Gilson Rodrigues (DEM), o retorno de vereadores que já tiveram mandatos e não fizeram nada de significativo (Irmã Silma, Sobrinho, Cézar da Vila) e outros sem muito potencial para empreender mudanças significativas, tendo em vista a forma de fazer política. Em resumo, nada de novo!

Para piorar a já baixa quantidade de mulheres na política representativa, houve redução na presença de mulheres na Câmara de 5 para 3 vereadoras, sendo que nenhuma das eleitas tem práticas nem propostas voltadas para as mulheres ou à igualdade de gênero. Se o mandato de Karlúcia Macêdo (PMDB) como vereadora foi de destaque nos últimos anos, a partir da campanha como vice-prefeita, ela assume uma posição secundária, ficando praticamente invisível.

É comum após as eleições iniciarem debates e acordos sobre a presidência da Câmara Municipal. Em Barreiras não foi diferente e logo após a eleição, inúmeros eleitos já anunciavam a pretensão de assumir tal posto, tais como João Felipe (PTB), Gilson Rodrigues (DEM), Marcos Reis (PTN).

Infelizmente, é comum também nesta velha política no qual estamos inseridas/os, que a autonomia do poder legislativo seja colocada em xeque diante de uma maioria de vereadores/as sob a sigla do prefeito eleito. Em Barreiras também não foi diferente.

Dos 19 vereadores/as eleitos/as, segundo pesquisa no site do TSE, 11 estão sob a coligação/base de Zito Barbosa (DEM), a saber: Irmã Silma e Eurico Queiroz (PRB), Otoniel (PDT), Dra. Graça e João Felipe (PTB), Eugênio (PMDB), Dr. José Barbosa (PSC), Almery e Gilson Rodrigues (DEM), Carlos Costa (PHS) e Cézar da Vila (PT do B) e 08 foram eleitos como base da "oposição", por estarem na Coligação de Antônio Henrique (PP), a saber: BI e Carlão (PP), Vivi Barbosa (PC do B), Sobrinho (PPL), Beza (PSL), Professor Hipólito (PTC), 

Nesse jogo, em que o povo não é nada além do legitimador, o que não falta é gente desorientada e achando que "política é isso". Não! Isso é a velha política. A política como bem comum não se submete a desejos e mandos dos chefões de plantão, isso é da alçada da velha política, o que os ditos novos e antigos vereadores sabem muito bem fazer. 

No dia 28/12 uma notícia surpreendeu: "Gilson Rodrigues deve ser o novo presidente da Câmara de Barreiras". E no dia seguinte (29) "Zito reúne vereadores; Gilson já tem 16 votos", com direito a "selfie" sem qualquer pudor de intromissão de um Poder (Executivo) sobre o outro (Legislativo). Não bastasse, para posar de transparente, fazendo uso sofista das palavras, o vereador João Felipe (PTB) postou em sua página pessoal do facebook o acordo que decidiu pela chapa para a mesa diretora da Câmara e Gilson Rodrigues, do mesmo Partido de Zito, como presidente.

Esse fato nos faz refletir principalmente sobre duas questões:

1) A função de fiscalização do Poder Legislativo estará muito comprometida, com uma Câmara submissa e dependente do Prefeito (Executivo). Ao contrário do que possam argumentar, não se trata de "governabilidade", mas de submissão. Tanta, ao ponto de que um candidato eleito na base do candidato e atual prefeito não reeleito, Antonio Henrique, foi ameaçado, pelo Presidente Estadual do seu Partido, de perder o mandato, caso se negasse a "apoiar e votar no candidato que for indicado pelo prefeito eleito para a presidência da Câmara do Município".

2) Teremos na presidência da Câmara um vereador reeleito, sem nenhum trabalho relevante à comunidade e que ganhou projeção após divulgação de informações falsas envolvendo o debate de gênero uando da construção e tramitação do PME, o Plano Municipal de Educação (ainda não aprovado). Este mesmo vereador tem posições públicas que afrontam diretamente os Direitos Humanos, sobretudo das mulheres e pessoas LGBT. De fato, o conceito de gênero não é de amplo conhecimento e compreensão da sociedade, mas trata-se, resumidamente, das construções sociais dos papéis masculinos e femininos em sociedade (veja também texto que escrevi na época AQUI).

Esse cenário aponta que, sem dúvidas, teremos uma situação pior em Barreiras do que a maioria da população – enganada - decidiu nas urnas. Nesse contexto, destaca-se o jovem João Felipe, atual presidente do PTB, o 6º mais votado nas eleições de 2016, cuja trajetória inclui a militância estudantil secundarista, tendo ocupado o cargo de coordenador de Politicas para a Juventude na gestão da ex-prefeita Jusmari Oliveira, presidente da União da Juventude Socialista (UJS) em Barreiras, assessor parlamentar da ex-deputada estadual Kelly Magalhães e enquanto filiado do PC do B, por indicação da ex-deputada, ocupou o cargo de Coordenador Regional do Sine-BA,  na Secretaria Estadual do Trabalho, Emprego e Renda, tendo mudado de sigla partidária (veja nota do PC do B sobre o fato), filiando-se ao Partido Trabalhista Brasileiro e de imediato assumido a presidência do mesmo. Necessário registrar a severa mudança ideológica (de um Partido considerado de “Esquerda” para um Partido considerado de “Direita”) para atender o objetivo de ser eleito, projeto alcançado com sucesso.

Esse jovem, que impressiona muita gente merece atenção em relação às suas velhas atitudes, ao discurso sedutor e ao caminho que trilha lado a lado com velhos políticos profissionais. Ele, que foi discriminado pela vereadora Núbia em determinada ocasião em virtude de sua orientação sexual agora se alia com aqueles que oprimem a sexualidade que foge da norma. Obviamente não se legisla com a sexualidade, mas é óbvio também que o que somos enquanto seres nos constituí como sujeitos políticos e influencia em nossas escolhas. Em tempos de ataques aos Direitos Humanos, toda atenção é preciosa e deve ser precisa.

João Felipe afirmou que a chapa para a Mesa Diretora da Câmara e o possível presidente Gilson não influenciarão no seu trabalho na Câmara e na defesa das minorias sociais. Essa afirmação demostra desconhecimento dos procedimentos e quem sabe, alguma inocência acerca do legislativo. Há quem creia nisso. 

De nossa parte, a convicção de que não teremos oposição ao prefeito, mas menos ainda fiscalização por parte da Câmara Municipal e deveremos intensificar tais ações do lado de fora. 2017 espera de nós muita luta, nada mais!