O Blog recebe com muita felicidade, este artigo de opinião da minha amiga querida Indiara Souza (abraçooooo), que compartilhou conosco reflexões importantes envolvendo a falsa disputa entre gênero e raça no BBB 20. Leiam e deixem comentários, porque ela está estreando! E que texto, minha gente!
Por Indiara Souza*
Desde o primeiro contato na casa, Thelma e Babu comentaram
sobre a importância de ambos naquele espaço, para compartilhar experiências
semelhantes, no que diz respeito ao debate racial. A partir disso, surgiu nas
redes sociais uma euforia, principalmente por parte das pessoas negras, que
enxergaram em Babu e Thelma representação tão potente.
O BBB 20 obteve destaque também por ter sido composto por
alguns homens de caráter duvidoso e questionável. Logo nas primeiras semanas do
programa houve uma repulsa por parte do público direcionada a esses
participantes. Assim, ocorreram as eliminações do jogo e, consequentemente, os
homens começaram a sair e as aproximações por afinidade começaram.
Babu teve facilidade em dialogar com os homens mais
criticados da edição e Thelma com uma colega de profissão que, no momento, era
bem avaliada pelos espectadores. É nesse contexto de escolhas ou afinidades
distintas que destaco algumas percepções sobre o debate nas redes sociais.
Desde o primeiro paredão que Babu enfrentou, ele optou por
mencionar sua história e as dificuldades enfrentadas; Thelma escolheu se
apresentar como um exemplo de superação, mulher negra que foi adotada na
infância, de família pobre, teve que criar oportunidades para conseguir
estudar. No seu canal no Youtube, ela conta a dificuldade que enfrentou até se
tornar uma médica e os comportamentos racistas e sexistas que ainda sofre,
atuando na área da saúde.
A diferença do discurso da Thelma e do Babu no programa foi:
Babu mencionava as dificuldades financeiras que tinha deixado aqui fora e como
era preterido por outros atores "padrão". Thelma exigia
reconhecimento por sua personalidade e coerência. Destaco mais uma vez que
minha intenção não é questionar a empatia do público por Babu, mas sim pontuar
a maneira como a sociedade lida com uma mulher preta que “não deita para
ninguém”, como diz o ditado popular.
Babu além de manter relação muito próxima de afeto com
homens brancos extremamente machistas e
homofóbicos, também sorriu das falas agressivas dos amigos e fez alguns
comentários como: “se ela dança seduzindo assim ta pedindo, não adianta
reclamar depois” e “aquele viadinho”, entre outros. Ele levantou discussões
dentro da casa, que refletiram nas redes socias, uma delas foi como é negativo
se referir a uma pessoa negra chamando a mesma de negra, afirmou que somente no
Brasil isso é aceitável. Como estamos todxs passíveis a equívocos, alguns
militantes o defenderam, com o argumento de que essa pode ser uma visão
pessoal.
Alguns poucos posicionamentos contrários a essa afirmação me
trouxe a memória um artigo com o tema “Quem tem medo da palavra negro”, escrito
por Cuti e publicado na revista Matriz, em 2010. Cuti afirma que ao usarmos a
palavra negrx, estamos impedindo que esqueçam toda carga semântica que ela
carrega, a história não permite que nos esqueçamos de como a população negra
foi duramente escravizada durante séculos, exatamente por serem NEGRXS. Assim,
nos afirmar negras e negros também nos remete à dívida histórica, a resistência
antirracista do nosso povo. A tentativa de excluir essa palavra do nosso
vocabulário não é algo inocente, é mais uma atividade colonizadora com intuito
de nos fazer ignorar tamanha crueldade.
Entre essas discordâncias, nas redes sociais, o que
predominou foram diversas páginas e pessoas que se afirmam como militantes,
apresentando Babu como um professor. Entendo essa afirmação um tanto
prejudicial pois, deslegitima profissionais e pesquisadorxs que se dedicam em
apresentar uma escrita negra coerente com dados comprovados. E por que essa
reflexão? Porque essas mesmas pessoas defenderam Babu das suas falas machistas
e homofóbicas com o seguinte comentário “é uma questão estrutural, Babu é um
cara do povão”. Esse mesmo homem do povão também ganhou duas vezes o prêmio nacional
de maior destaque “Grande Otelo” de melhor ator.
Essas premiações também fazem parte da carreira de um homem
que fez mais de 40 trabalhos, incluindo novelas e participações no cinema, etc.
Com isso, penso que diferente de muitas outras pessoas negras, Babu está em
espaços que outros negros não têm acesso. Thelma precisou se inscrever para
participar do BBB, Babu foi convidado. Estudar sobre aquilo que ele afirma
defender não é algo difícil e distante da realidade dele, ignorar isso é um
tanto irresponsável; quando exigem uma postura extremamente personalizada de
uma mulher negra, que foi o caso da Thelma.
Todas as vezes que iniciava o debate sobre questões raciais
no reality, Thelma e Babu apresentavam suas vivências e considerações, mas
somente Babu recebeu o maior destaque e apoio. Babu foi defendido quando apoiou
seus amigos machistas e justificou que a postura dos mesmos era algo
“comportamental”. Ele afirmava que não votaria em Thelma enquanto tivesse
outras opções, desde que essa outra opção não fosse seu amigo Prior (acusado de estupro, após a saída do reality), agressivo com ações e palavras. Thelma
também afirmou que não votaria em Babu tendo outras opções, opções essas que
não fossem suas duas amigas. Thelma defendeu Babu quando insinuaram medo dele e
partiu para o enfrentamento por não votar nele. Por isso, recebeu o castigo do monstro (uma espécie de
"prenda", em consequência de uma prova, que premia o vencedor com um
almoço e ainda garante o direito a levar dois participantes mais próximos) e o
distanciamento de algumas pessoas que ela tinha muito carinho.
Em contrapartida, foi insultada por um amigo do Babu
afirmando que não tinha o que discutir com Thelma, pois ele “tinha berço”. Essa
discussão aconteceu literalmente na frente do Babu e ele não pronunciou uma
única palavra para defender a mulher negra. Mas o mesmo Babu afirmou para um
homem branco que Thelma havia escolhido a casa grande, apenas por ter aceitado
o afeto de mulheres brancas. Em nenhum momento Babu foi julgado por isso,
Thelma foi extremamente julgada quando optou por não votar em sua amiga sendo
rotulada como “chaveirinho de mulher branca”, sua página foi duramente
criticada, enquanto a página do Babu reproduziu o mesmo comportamento do Babu
fora da casa chamando Thelma de mucama: termo usado no período escravocrata, referente à negra escrava que
realizava as obrigações domésticas e também era ama de leite dos filhos dos
senhores. Mais uma vez, a militância permaneceu em silêncio.
O argumento de que Thelma priorizou gênero ao invés de raça,
como fez Babu, é inválido quando analisamos as defesas dele para seus
amigos. Assim é nítida a solidão da mulher negra na sociedade, pois para muitas
pessoas o correto seria Thelma abrir mão do afeto e lealdade oferecidos a ela,
para defender um homem negro, que optou também por não a priorizar. Thelma foi
criminalizada por usufruir de afeto. Esses acontecimentos me fazem concordar
com a seguinte afirmação feita por minha amiga Beatriz Silveira: “existem privilégios dentro dos
próprios movimentos, digo, no movimento negro nitidamente é o homem negro o
privilegiado, no feminismo, a mulher branca”.
Nesse sentido, relembro a afirmação feita por
Chimamanda Adichie, em Sejamos Todos
Feministas (2016) “não é fácil conversar sobre a questão de gênero”,
repensar nosso comportamento dentro dos próprios movimentos é necessário e
diversas vezes não nos atentamos para isso. Entender que Thelma está em um lugar
de privilégio em relação ao Babu é injusto, pois ambos frequentam espaços
consequentes das escolhas profissionais. Thelma não deixa de sofrer racismo e
misoginia por ser médica, a exemplo as injustas críticas direcionadas a ela no período do reality.
Thelma, até o último paredão, foi desacreditada
ou tida como arrogante,
apenas por não aceitar ser feita de boba ou
diminuída. E me assusta a militância ignorar esses fatos, quando no próprio
jogo ela sempre fazia provas com o Babu e ao perder uma dessas provas ele
afirmou ter perdido porque “ela era lenta”, e quando a mesma venceu uma prova
de resistência foi desmerecida dentro do próprio reality. Foi necessário brigar
pelo reconhecimento, não houve comoção e sim termos como “ficou soberba,
arrogante”. E quando o assunto era Babu, surgia
textão nas redes sociais e muita emoção por ter um homem negro sendo
injustiçado.
A minha reflexão não se baseia em ignorar a
trajetória do Babu, mas sim de questionar como o homem, incluindo homens
negros, mantém seus privilégios, sem que a sociedade faça uma reflexão. Antes mesmo
de entrar no BBB Thelma expôs no seu canal sobre as diversas situações de
racismo sofridas por ela, e em nenhum momento foi defendida como “dona e
proprietária da palavra”, afinal, ela não agiu conforme o perfil de mulher
negra que a “militância” impôs na internet. Para a mulher negra existe um
perfil para que tenham empatia, para o homem, basta que ele apresente o mínimo
discurso “bonitinho” para receber aplausos e honras.
Adichie (2019), em seu livro O perigo da história única, reflete
acerca das relações de poder e como isso pode ser definitivo na história de um
sujeito. Babu, sendo homem negro, obviamente
está acima das mulheres negras na pirâmide social, seu discurso se estabelece e
é defendido sem que haja resistência. Thelma, mulher negra que se encontra na
base da pirâmide, precisa gritar para que seja notada, e talvez ouvida. Errar é
inadmissível para uma mulher negra, para o homem negro há uma justificativa
estrutural acerca do machismo e racismo, como se a mulher negra não fosse alvo
de ambas crueldades.
A partir dessa
insensibilidade direcionada à mulher negra, podemos relembrar a necessidade da
visão interseccional teorizada por Kimberlé Crenshaw, que é fundamental no
movimento feminista. Uma mulher negra não tem a vantagem de vivenciar apenas
questões raciais, ela está em um lugar vulnerável, que tende a ser
subalternizado, por experienciar gênero e raça, cruelmente, ao mesmo tempo. Ela
não pode eleger uma opressão para lutar, precisa articular para se posicionar e
resistir às diversas opressões. Assim, nota-se a importância de reconhecer o
lugar social que os homens negros ocupam, para não perpetuar a invisibilidade
na vida e luta das mulheres negras.
Durante os 98 dias do BBB tentaram criar uma
história sobre a trajetória e escolhas da Thelma. Ao final, ela provou para todxs como a trajetória de uma mulher negra
tende a ser solitária e difícil. Mas partir para o enfrentamento ainda é a
melhor escolha quando concluímos um ciclo, entendendo que foi mérito único e exclusivo da nossa persistência e
ousadia.
* Indiara Souza, essa lindeza sabida, é graduanda do curso de Letras - Língua e Literaturas de Língua Portuguesa, na Universidade do Estado da Bahia, Campus IX.
Parabéns, que texto lindo e necessário !!
ResponderExcluirAinda estamos longe de mudar essa realidade, mas saber que existem pessoas que lutam por causas tão importantes me conforta e me faz acreditar que podemos ter um mundo mais justo. Parabéns, Indi! Vc como sempre arrasando.
ResponderExcluirUau! Excelentes reflexões. Parabéns a essa jovem escritora, que demonstra ter um olhar aguçado para questões que se apresentaram, muitas vezes, sutis, nos discursos expostos, bem como nos subentendido.
ResponderExcluirIndiara, gratidão pelo artigo!
ResponderExcluirVocê conseguiu explicitar bem, nossa posição de vulnerabilidade. Concordo plenamente que a única saída é se "articular para resistir às diversas opressões".
Sigamos na luta compa!
Amanda Silva
Maravilhosa reflexão!
ResponderExcluirParabéns pelo texto e pela reflexão. Muito boa.
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