quarta-feira, 10 de setembro de 2014

SOU CANDIDATA A DEPUTADA ESTADUAL!

Postada no facebook em 06/07/2014. Por Paula Vielmo

Recentemente o Partido Socialismo e Liberdade, do qual faço parte, considerou importante que tivéssemos no Oeste uma alternativa para as eleições estaduais, através de candidaturas. Essa decisão indicou posteriormente meu nome para representar essa difícil e importante tarefa, pela militância política ao longo desses quinze anos em luta.

Todas as pessoas que me conhecem militando de maneira comprometida com as causas sociais e com os movimentos sociais sabe que coragem para enfrentar os desafios não falta. Assim, alguns processos em curso, individuais e coletivos foram interrompidos para cumprir este novo desafio, a partir da compreensão de que É NECESSÁRIA uma alternativa política para o Oeste e essa alternativa está no PSOL.

Se não formos nós, o que precisa ser dito não será dito e o que precisa ser feito não será feito. Isso é prepotência? Não, é apenas a realidade de Partido e militância sem qualquer amarra com financiadores de campanha, com latifundiários, com máfias de transporte, com cabides de emprego. Resumidamente, somos um Novo Partido contra a Velha Política.

Esse modelo político vigente em todo o nosso país, em nosso estado e em nosso velho Oeste não pode ser tratado com naturalidade. É preciso perceber que é uma construção de uma forma de fazer política que nos exige, na condição de pessoas que não aceitam a exploração e a desigualdade com banalidade, indignação, mas para além disso, ações que instiguem a transformação social.

Nesse sentido, comunico às amigas, amigos, companheiras e companheiros, que sou candidata a DEPUTADA ESTADUAL pelo PSOL, sob o número 50.777. Nossa campanha começa hoje, dia 06 de julho! Uma campanha em construção coletiva, com poucos recursos, que dependerá da militância e engajamento de cada pessoa que acredita que NADA É IMPOSSÍVEL DE MUDAR!

Conto com vocês! 
#‎PaulaVielmo50777

Nossa fanpage: facebook.com/NosAcreditamosOficial

Blog hiper desatualizado

Por Paula Vielmo

Os percalços da vida, somados ao facebook e instagram como meios de rápida divulgação das coisas, fizeram-me abandonar este importante veículo de reflexões e denúncias chamado "Ideias são à prova de bala". 

Tentarei retomar, pois entendo que este blog representa um canal alternativo à imprensa hegemônica que temos em Barreiras. E por ser independente, aborda o que quero, sob a minha perspectiva crítica e classista. Temas para escrita não me faltam, mas condições para sentar e escrever de maneira elaborada. Sinto saudades, não sei vocês...

Optei por não voltar atrás. Queria ter escrito sobre a audiência do transporte coletivo, uma luta com mais de 7 anos, mas acabei perdendo o bonde da história. Agora, só o que ficará na seletividade da memória e o que foi registrado pelo PSOL. Estamos de olho nessa questão de interesse coletivo sobre o transporte e a máfia do busão.

Queria ter escrito sobre tantas outras situações, desde sessões da Câmara até a segunda greve que participei como Servidora Federal, mas optei por não fazê-lo. Vamos em frente!

Então, para retomar, optei por postar aqui a nota aberta que divulguei no facebook no dia 06 de julho de 2014, data em que iniciou o período de campanha eleitoral. Sou candidata a Deputada Estadual e não divulguei isso no MEU BLOG. Também considero um absurdo, mas enfim...rs

Vamos em frente, na expectativa de, agora, não haver pausas longas. Abraço!

domingo, 16 de fevereiro de 2014

O prefeito de Barreiras e a normalidade da violência: "eu tô acostumado com isso"

Por Paula Vielmo


Suplicamos expressamente:
não aceiteis o que é hábito
como coisa natural,
pois em tempo de desordem sangrenta,
de confusão organizada,
de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada,
nada deve parecer natural
nada deve parecer impossível de mudar.
Bertolt Brecht



No dia 14 de fevereiro, um tema foi central nas rodas de conversas e redes sociais em Barreiras: a atitude do prefeito municipal de agredir manifestantes. O fato ganhou repercussão porque foi filmado e transmitido pela TV Oeste (local) e mais tarde pelo BA TV (estadual), com um forte comentário da apresentadora em Salvador. Em Barreiras não houve comentários da âncora.

Passei  o dia 14 trabalhando e somente no dia 15 pude me apropriar do fato, assistindo o vídeo do programa e procurando comentários e textos na imprensa local de Barreiras. Consegui achar o vídeo, mas apenas um texto local, superficial e sem identificação de autoria em um site de jornal. Os demais se limitaram a postar a gravação da reportagem da televisão. Além disso, achei na imprensa local uma ampla divulgação da rápida nota de esclarecimento que foi elaborado pela Assessoria da Prefeitura. Neste texto, procurarei de maneira sintética, abordar a reportagem, a nota de esclarecimento, a repercussão do fato e a normalidade da violência municipal, tudo misturado e desordenado.

A repressão aos movimentos sociais, populares e manifestos de rua são bem mais corriqueiros do que a televisão mostra. Essa prática, sobretudo por parte do Estado como poder, atua para manter a ordem, o que significa retirar do caminho as pessoas que representam algum obstáculo. A repressão coíbe muitas pessoas de se manifestarem, mesmo diante da conquista da liberdade de expressão, algo compreensível diante de uma nação que a pouco tempo viveu um período ditatorial. Em contrapartida, outras vão para o enfrentamento, como aconteceu com a população da comunidade do Conjunto Habitacional Arboreto I e II na manhã de 14 de fevereiro de 2014 em Barreiras, velho oeste da Bahia.

Em breves 1 minuto e 08 segundos desvelou para o estado baiano o que é o Prefeito, causando indignação generalizada, encarada por estas bandas em menor intensidade, verificada através da transformação do ocorrido em piada. Rapidamente, surgiram "memes" com fotos e frases. A situação passou de deprimente para engraçada, provocando uma perigosa manutenção da passividade hegemônica da população barreirense que, como muitas outras pessoas, olhou para os/as manifestantes como "baderneiros/as" e concordou que deveria mesmo "liberar" o acesso. Adotou-se uma perspectiva egoísta em relação ao que aquela comunidade está vivenciando em virtude da mudança do tráfego, demonstrando que grande parcela da população barreirense internalizou a violência, banalizando o desrespeito aos direitos humanos.

A reportagem na televisão, meio que transmite com grande alcance e repercussão, trouxe à tona através das imagens e da fala do prefeito o que vivenciamos em Barreiras e nesta administração, mas também no governo anterior, que enviava seus capangas para reprimir manifestantes (leia aqui, aqui e aqui). Todavia, me chamou a atenção, além de toda a violência, a fala dele "passa, passa por cima desses filhas da puta", que demonstra a capacidade realmente destrutiva do Prefeito, mas também uma violência de gênero, verificada mais ainda através da composição do manifesto: formado majoritariamente por mulheres e crianças. Sacou?

A atitude do prefeito foi anunciada em portais virtuais de grande acesso, como o G1, mas é, para mim, o reflexo direto da sua administração municipal e de todas as pessoas que o acompanham, seja através do voto, da defesa ou das alianças para garantir (re)eleição. A manutenção de um homem violento, desequilibrado em relação ao diálogo e habituado com a truculência, possuí cumplicidade e ampla rede para sustentar-se. 

Para nós, moradoras/es de Barreiras, a reação dele não é novidade. Todavia, não pode ocupar um lugar de "trivial" no cotidiano. A afirmação de que "eu tô acostumado com isso" desvela uma prática conhecida, mas abafada, sobretudo pelo medo. Não é "normal" e nem deve ser, agir com truculência em relação aos manifestos. Ele age assim porque possuí poder para isso, seja como prefeito, seja como homem rico e conhecedor da lentidão da justiça brasileira. Em todos os casos, ele possuí vantagem sistêmica sobre a população do Conjunto Habitacional Arboreto I e II e do presidente da Associação que foi agredido fisicamente.

Ao se manifestarem em relação a pouca segurança por causa do tráfego de veículos pesados nas proximidades do local em que residem, aquela população pobre, foi mais uma vez vítima, agora com relação à repressão física através do punho - literalmente - do prefeito municipal Antonio Henrique. As imagens filmadas daquele homem truculento mandando a máquina romper o bloqueio a todo custo de violência, desvelou uma prática conhecida da população em virtude do perfil e histórico do prefeito, o que provavelmente intimidou a imprensa local a falar sobre o assunto de maneira menos tímida.

Esta imprensa local, que apenas reproduziu em seus sites o vídeo, publicou rapidamente a "Nota de esclarecimento da Prefeitura sobre incidente envolvendo o Prefeito Antônio Henrique em manifestação em Barreiras", emitida pela ASECOM, dirigida pelo PT. Nesta nota, recheada de manipulações textuais para dar a impressão que foi um equívoco e que o prefeito apenas desejava garantir o trânsito, não substituí o poder e impacto das imagens, que comunicam uma outra mensagem.


Na nota, o objetivo é desqualificar a manifestação, acusando de não conseguirem negociar em virtude da "intencionalidade política das lideranças da manifestação". Ora, existe alguma manifestação humana que não seja política? O ser humano é essencialmente político e obviamente um manifesto que reivindica possui pauta política. Insinuar que um prefeito que não dialoga tentou o diálogo é tão calunioso quanto insinuar que havia manipulação do manifesto.

Dentre as inúmeras tentativas de defesa do prefeito, justificam que ele fora ofendido verbalmente. Ora, que prefeito sem controle emocional é esse? Violência tem justificativa? E por fim, um parágrafo de meras duas linhas e meia em que "O Governo Municipal lamenta a exploração política do episódio, uma vez que o Prefeito estava imbuído somente do propósito de desobstruir a via, para evitar maiores problemas", tentando, mais uma vez, deslocar o fato de termos um prefeito violento, levando para o campo da oposição.

Obviamente, a oposição vai explorar politicamente o caso, e isso deve ser realmente feito para jamais naturalizar este tipo de ação, pois se depender de certos Partidos aliados que cresceram à base de manifestação e agora se posicionam contra, cada dia mais os movimentos socais serão criminalizados. Porém, não basta distribuir imagens com frases engraçadas que logo cairão no esquecimento. É necessário analisar profundamente, bem mais do que consigo neste breve texto, as condições para essa situação e acima de tudo, não aceitar o que é hábito como natural e acreditar que podemos e devemos mudar as relações de poder em Barreiras, abandonando essa velha política, porque nada é impossível de mudar!

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Toda feminista é mal amada


Por Luíse Bello


(Inspirada pelo meu texto publicado  no incrível Think Olga, compartilho com vocês uma pequena introdução à minha faceta feminista. Enjoy!)

O título alarmante é pra chamar atenção mesmo e dizer que eu concordo com este que é o argumento mais batido daqueles que querem atacar o feminismo. É verdade. Toda feminista é mal amada. E ela só é mal amada porque é mulher. Sou uma delas e posso dizer que sou, sim, muito mal amada.
Sou mal amada desde criancinha quando me ensinaram que o meu mundo era um tanto quanto limitado. Na escolinha onde estudei até a quarta série (não sei o equivalente no mundo atual), o único brinquedo que havia no pátio era uma mesa de totó. Muito velha, muito capenga, mas era um sucesso – e exclusiva para os meninos. Eu já não gostava de futebol, mas tinha tanta vontade de brincar naquilo! E o fato de não poder me angustiava. Era a primeira de muitas experiências do tipo.
Conforme fui crescendo, descobri que a mídia também não me amava. Não fui amada por todas as novelas que retratavam somente mulheres que não se pareciam em nada comigo (ou com a maioria das mulheres que eu conheço); não fui amada pelos noticiários que tratam mulheres poderosas com desdém, focando por vezes em seus atributos físicos em detrimento de sua intelectualidade e conquistas alcançadas; não fui amada pelas revistas que me davam 101 conselhos para enlouquecer um homem e nenhum para me manter sã em meio a tanta pressão; não fui amada pelas receitas de emagrecimento que me adoeceram em busca de um ideal que só satisfaria aos outros; não fui amada pelas dicas de maquiagem que esconderiam as minhas imperfeições – e que me apontaram muito bem quais são elas.
Certamente não sou amada por uma sociedade que me condena se eu preservar a minha sexualidade (Puritana! Fresca! Cu doce! Sonsa!) e me condena se eu vivê-la livremente (Puta! Vagabunda! Piranha!); não sou amada por homens cada vez mais exigentes em aparência física e que dão notas de 0 a 10 para o meu corpo, analisando se sou digna ou não de sua afetividade; não sou amada pelas mulheres que, vítimas dessa realidade, me veem como ameaça, como inimiga, como alguém que está com inveja do que elas têm ou são ou, pior, como alguém que quer roubar o companheiro delas; não sou amada por uma conjuntura social em que as minhas roupas são vistas como determinantes da minha personalidade; não sou amada numa cidade sitiada por tarados, na qual devo evitar ruas, roupas e horários para não ser atacada; não sou amada por aqueles que culpam as mulheres em caso de assédio ou estupro contra elas.
Também não me ama o mercado de trabalho, que me oferece uma remuneração menor e, no fundo, torce o nariz para a minha maternidade; não sou amada pelas piadinhas sujas que ouço calada de meus superiores e colegas, por medo de perder o emprego em caso de denúncia; não sou amada ao ser chamada a atenção por excesso/falta de maquiagem; não sou amada por uma maioria masculina em cargos de chefia; não sou amada pela desconfiança de como consegui meu emprego ou uma promoção.
Sou mal amada porque, se eu não casar até uma certa idade, ninguém mais vai me querer! Nem se eu engordar, nem se eu emagrecer demais, nem se eu for muito poderosa (porque isso ~assusta~), nem se eu for muito submissa, nem se eu for muito inteligente, nem se eu for muito burra, nem se eu não me depilar, nem se eu falar palavrão, nem se eu gostar de sair à noite, nem se eu quiser compromisso sério, nem se eu não quiser compromisso sério. Não sou amada quando querem que eu, solteira, namore (só por namorar, só por ter alguém, só pra ter um homem que me ~assuma~); namorando, que eu case; casada, que tenha filho; com um filho, que tenha mais; com mais, que eu tome cuidado pra não embarangar e perder o marido. Não sou amada quando me dizem pra ter cuidado, hein, senão ele arranja outra!!!
A publicidade, então, me odeia! Afinal, não me vejo nos anúncios e sempre me pedem para mudar, seja meu cabelo, meu carro, minha cerveja, meu absorvente, minha barriga, meu molho de tomate, meus sapatos, meu hálito, meu refrigerante, meu provedor de internet, sempre me lembrando de que, assim, eu vou ficar mais gostosa, mais atraente, mais feliz, mais segura, mais tranquila -e menos eu. Porque, não adianta, eu nunca tô 100%. Eu nunca sou suficiente. Como, então, posso me sentir amada?
Se eu fosse amada (veja bem, não digo nem BEM amada, o que seria muito melhor. Só amor já ajudaria!), não reclamaria; não me sentiria feia, nem gorda, nem deslocada, nem magra, nem incapaz. Poderia circular livremente pelas ruas da minha cidade vestindo o que eu bem entendesse, sem que ninguém se sentisse no direito de opinar sobre o meu corpo ou me dissesse o que gostaria de fazer com ele. Ah, se eu fosse amada, seria valorizada em qualquer setor que eu desejasse trabalhar. E leria publicações femininas que falassem mais sobre mim, e menos sobre o que querem os homens. Se eu fosse amada, realmente, em todos os aspectos da minha vida, eu definitivamente não precisaria ser feminista, nem lutar por condições mínimas de liberdade para a mulher.
Não sendo o caso, sou mal amada e, sendo assim, só me resta ser feminista.
Postado originalmente em Cronicamente carioca

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

"Entre nós": sobre a violência doméstica contra a mulher.

"Começou quando eu engravidei do meu primeiro filho".

"Entre Nós" é um projeto fotográfico independente, feito por alguém que não aguenta mais ouvir sobre mulheres que sofrem violência dentro das próprias casas - histórias, muitas vezes, sobre pessoas muito próximas e queridas.

Depois de pesquisar, ouvir e conversar com muitas mulheres - sobre sofrer violência e não contar para ninguém, sobre sofrer e contar, sobre o efeito devastador que isso causa na vida da pessoa, sobre procurar ajuda, sobre medo, sobre culpa, sobre impotência, sobre silêncio, sobre todas as milhões de complexidades que este tema envolve - este projeto foi a forma que eu encontrei de me posicionar, de dizer "não concordo". Não pretendo, com isso, trazer as respostas, mas sim incomodar e gerar uma discussão sobre o assunto. Não se trata, portanto, de uma campanha, mas de uma proposta de reflexão sobre um tema que não é suficientemente falado no Brasil.

"Eu esperei ele mudar. Faz 11 anos  que eu estou esperando".
Sim, existem crianças que apanham em casa, idosos que apanham em casa, homens que apanham em casa. Mas, neste projeto, estamos falando exclusivamente sobre a violência doméstica contra a mulher: ela acontece em todas as classes sociais e em todas as idades, e está muito mais próxima do que às vezes podemos imaginar. Os números são assustadores (veja alguns dados e exemplos em Links Úteis).

Todas as mulheres retratadas aqui são atrizes, mas encenando situações de histórias reais: não se trata, portanto, da Maria ou da Joana, pessoas específicas, com casos específicos. Estas personagens são a representação de um contexto enorme, realmente complexo, e de um situação que afeta muita, muita gente - e que, principalmente, não pode deixar de ser discutida.

Estas fotos são uma forma de protesto.


Texto retirado integralmente do site do projeto "Entre nós". Confira todas as fotos CLICANDO AQUI!


quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

A expansão da UFBA

Por Nelson Pretto¹

A
Comissão de Patrimônio, Espaço Físico e Meio Ambiente da Universidade Federal da Bahia tem estudado algumas propostas para a sua expansão em termos de área física. É sabido e visível que estamos já espremidos tanto no campus de Ondina como no Canela. Ao longo dos últimos anos, a UFBA ampliou seus espaços para além da capital, implantando os campi de Barreiras, que depois deu origem à Universidade do Oeste da Bahia, de Vitória da Conquista e um outro em Camaçari, que até agora não mostrou o foco de sua implantação sem ter efetivamente saído do papel. Estão sendo estudados, segundo seu Plano de Desenvolvimento Institucional, a “criação do Campus UFBA no Subúrbio Ferroviário de Salvador e um outro na Chapada Diamantina, com sede em Lençóis”. Não resta dúvida que a UFBA olha para diversos outros espaços e áreas e isso, em princípio, é muito bom.

No entanto, esta expansão precisa ser mais discutida no interior da própria universidade e, principalmente, com a sociedade baiana.
A questão norteadora das futuras discussões que espero que em breve aconteçam, deve ser prioritariamente compreender qual o modelo de universidade queremos para a Bahia. Um Estado que saiu da lamentável situação de só ter a UFBA como instituição federal de ensino superior, para a privilegiada situação de ocupar o 3º lugar no país em número de Federais por estado, contanto com cinco Instituições: além da UFBA, temos a UFRB no Recôncavo, a do Sul da Bahia, a do Centro Oeste e a do Vale do São Francisco, esta em pareceria com Pernambuco.
A UFBA cresceu, tendo hoje cerca de 40 mil alunos entre graduação e pós-graduação, com a implantação de muitos cursos noturno (em 2012.1 eram 7.679 alunos nos cursos noturnos), sendo esta uma aspiração de muitos, no interior na própria comunidade universitária e na sociedade. No entanto, precisamos pensar que tipo de universidade está sendo implantada, especialmente no período noturno. O que temos visto, basicamente, é que à noite, nossos alunos têm aulas e nada mais. O que sempre criticamos quando da absurda e desordenada expansão do sistema privado de ensino superior, está sendo a nossa prática: a implantação de escolões de terceiro grau! À noite, não há pesquisa, não há extensão, não há vida universitária! E mesmo para as atividades de ensino, as condições concretas estão longe de serem as minimamente adequadas para uma instituição que se valha do título de superior. São condições verdadeiramente inferiores, de trabalho, de infraestrutura e, como consequência, também de ensino.
É com base nesta experiência que temos que pensar sobre as possibilidades de expansão da UFBA. Durante o rico evento UrBA 2013, realizado em novembro último na Faculdade de Arquitetura, participei de um debate sobre o tema. Umas das apresentações realizadas foi a do superientende do IPHAN na Bahia, meu ex-aluno Carlos Amorim, que apresentou a possibilidade da UFBA vir a se agregar ao esforço de revitalização da região do comércio na cidade baixa aqui em Salvador. Com isso, alguns históricos prédios poderiam ser usados pela Universidade. De novo, a questão central volta à tona: usados para que? Para mais salas de aulas? Será essa a expansão que almejamos? Podemos pensar o mesmo para o chamado subúrbio ferroviário: que UFBA lá queremos?
Se a resposta for apenas ocupar salas de aulas para que alunos daquelas regiões possam receber aulas, estas oferecidas por professores que até lá se deslocariam para oferecer os conteúdos curriculares, seguramente esta não é uma adequada opção para a expansão da UFBA. Estaremos perdendo, assim, uma grande oportunidade de, efetivamente, entender a Universidade como um ente que tem como indissociável o ensino, a pesquisa e a extensão, tudo isso inserido fortemente naquelas regiões para, efetivamente, fazer a diferença na produção da ciência, de culturas e conhecimentos, estes fortemente articulados e enraizados com a realidade local que, conectada pelas redes digitais, seria, ao mesmo tempo planetária. Essa é a grande UFBA que queremos e não uma expansão pela simples expansão.
¹ Professor (e ativista) da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia. Secretário regional da SBPC-Bahia. Membro da Academia de Ciências da Bahia
Retirado originalmente de Terra Magazine

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Sessão Extraordinária da Câmara Municipal de Barreiras: nada de extraordinário, tudo igual!


Por Paula Vielmo



A primeira postagem de 2014 não traz muitas novidades em termos de acontecimentos e fatos, pois vai abordar a sessão extraordinária da Câmara Municipal de Barreiras ocorrida na terça-feira, 07 de janeiro de 2014.Tal sessão foi convocada para "apreciar vetos parciais do executivo municipal opostos às leis orçamentárias 1.049/2013, que dispõe sobre as Diretrizes Orçamentárias - LDO, 1.050/2013, que institui o Plano Plurianual PPA, 1.051/2013, que estima a receita e fixa a despesa do Orçamento Anual LOA, bem como a Lei 1.040/2013, e ainda para votação do projeto de lei nº. 019/2013 de autoria do Poder Executivo municipal que dispõe sobre a organização administrativa da Prefeitura Municipal de Barreiras" (Fonte: CMB), resumindo, para votar os vetos do prefeito à LDO, PPA e LOA e a reforma administrativa que propunha a criação de três novas secretarias municipais.

A sessão, marcada para 19:30 começou às 19:41. Os vereadores/as começaram a chegar a partir das 19:20, mas no horário marcado nem todos haviam chegado. O vereador Hipólito (PTC) chegou após a chamada e os vereadores Carlão (PSD) e Digão (PP) não compareceram (nem foi justificada a ausência por nenhum dos coleguinhas). A galeria da Câmara ficou lotada, sobretudo por muitos governistas e pessoas com cargos no governo municipal. Estava preparado o cenário perfeito para o grande espetáculo de stand-up coletivo que aconteceria nas mais de três horas a seguir.

Representar, nos palcos ou o povo, é uma arte e requer talento. Arte e talento são dois atributos que os vereadores e vereadoras de Barreiras, altamente incompetentes e despreparados para a boa política - entendida como aquela que beneficia os interesses coletivos, ou seja, da população -, não possuem. 

Após a leitura da pauta pela vereadora Karlúcia (PMDB/1ª Secretária), o vereador Aguinaldo (PTdoB) sugeriu um minuto de silêncio pelo falecimento da mãe de B.I. (PROS) e houve a queda repentina de um vidro, assustando os presentes. Em seguida desses episódios a palavra foi franqueada e vivenciamos mais de duas longas horas de falas esvaziadas por parte dos protagonistas da comédia stand-up tragicômica daquela noite: os "nobres" vereadores.

Vereador Otoniel
O primeiro a subir na tribuna foi o vereador Otoniel (PCdoB). Ele melhorou o discurso e escolheu uma linha interessante naquela noite: sobre o aumento dos gastos do município com a criação de mais três Secretarias, principalmente na folha de pagamento do funcionalismo público. Todavia, o discurso do vereador foi interrompido pelo faniquito do vereador Aguinaldo, que solicitou "aparte" e não aguentou esperar nem suportou as vaias de algumas pessoas da galeria. O vereador começou a berrar e bater na mesa, incorporando o papel de faniquito clássico. Depois disso o discurso de Otoniel se perdeu e ele finalizou na pequena política das suas indicações que haviam sido vetadas: postos de saúde, asfalto, apoio aos grupos de capoeira...tudo muito legislativo.

Vereador Aguinaldo
Esse episódio foi a motivação de vários que se seguiram no que trata de silêncio da população. O presidente da Câmara, vereador Tito (PDT) pediu que não houvesse manifestação na galeria, como prevê o Regimento Interno da Câmara. O povo de Barreiras já é passivo, então atender essa solicitação, sobretudo com maioria de governistas, não foi difícil. Que povo (tragicamente) obediente!

Vereadora Karlúcia
A próxima fala foi do vereador Aguinaldo (PTdoB), que dos dez minutos, como de praxe, utilizou quase dois para "agradecimentos, felicitações e futilidades afins". Depois defendeu o prefeito, com argumentos de pequena política de que apoiou fulana e agora está com ciclano: lindo de se ver a fidelidade ao prefeito, mas traição total ao povo! A vereadora Karlúcia (PMDB) subiu à tribuna com algumas várias folhas de um discurso entregue pela assessoria (durante a sessão, sem qualquer disfarce), mas se perdeu ao passar as folhinhas e depois disso...alguns gaguejamentos e nada aproveitável.

Vereadora Marileide
Em claro revezamento entre discursos prós e contras os vetos, subiram à tribuna o vereador Lúcio (Solidariedade), para defender o prefeito e os vetos. Em seguida a vereadora Marileide (PSL) subiu com um compêndio de direito como parte de sua personagem e fez seu discurso, nos moldes de sempre: citação de leis e leis, e reconhecimento de que antes votou a favor das emendas e agora votaria a favor dos vetos porque era inconstitucional. Ora, ambos (Lúcio e Marileide) são da Comissão de Constituição, Justiça e Redação Final da Câmara e não perceberam que era "inconstitucional" antes dos vetos de Tonhão?! Como assim, Marileide?!

Eis que sobe o presidente Tito, ocupando a tribuna em defesa das emendas, de que não eram inconstitucionais e dizendo que todos os projetos encaminhados pelo Executivo em 2013 foram aprovados, exceto o de aumento da tarifa de ônibus por causa de intervenção do Ministério Público. Após, entram em cena com suas falas limitadas em tempo e conteúdo, os vereadores Gilson (PROS), Alcione (PHS), Eurico (PPS), Rui Mendes (PTdoB), Vivi (PCdoB), Núbia (PP) e por fim, B.I. (PROS). Era mais tentativa de justificar a contradição que viria a seguir do que propriamente falar da ordem do dia.

A galeria estava bastante esvaziada às 22:13 quando começou a votação. Compreensível, porque suportar aqueles discursos nada com nada realmente é muito difícil. Inicialmente a votação da LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias), seguida da LOA (Lei Orçamentária Anual), parecer do PL 019/13 e do PL. Até então a votação seguia padronizada: 11 votos a favor dos vetos do Prefeito (Aguinaldo, Vivi, Beza, Eurico, Hipólito, Gilson, Lúcio, Graça, Marileide, Núbia, Rui)  e 05 (Alcione, B.I., Célio, Karlúcia e Otoniel) contra, mas de repente aconteceu uma reviravolta quando Alcione, apoiado por Otoniel, ambos membros da Comissão de Planejamento, Trânsito e Obras leu a resposta de um requerimento feito à prefeitura, protocolada às 19: 11. 

Vereador Rui
Foi citação de regimento interno da Câmara aqui e ali, até que o vereador Rui disse, sem qualquer vergonha como era o jogo: "somos 11 hoje e seremos 11 daqui a dez dias, vota logo hoje!" E assim foi feito e aprovou-se a criação de mais três secretarias com o mesmo placar de 11x05, criando mais de 350 cargos para as Secretarias de Planejamento e Desenvolvimento Econômico, Serviços Públicos e Trânsito e Segurança Cidadã. Observemos que o vereador Vivi, apesar de ser do PCdoB, que "se diz" oposição ao governo de Tonhão, continua votando com o governo sem qualquer constrangimento e fidelidade partidária.

Fazia tempo que eu não frequentava as sessões, e sinceramente, aquela noite me lembrou como é difícil fazer tal acompanhamento: é muita pequena política em cena para suportar quando já se tem uma leitura mais ampla sobre o processo político, o sistema representativo e suas limitações e a convicção da necessidade de ruptura com tudo o que está posto. Aquela noite foi a reafirmação de que a política representativa está falida, não funciona em Barreiras e em nenhum lugar, pois as negociatas e interesses pessoais e de agrupamentos se sobrepõem aos da sociedade coletivamente. Foi um espetáculo de tudo o que não deve ser feito como boa política!


segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

ABUSO DE AUTORIDADE POR POLICIAIS EM BARREIRAS

Por Paula Vielmo


Na noite de 20 de dezembro, por volta das 23:15, estava sentada com uma amiga na Praça São João Batista quando uma viatura policial veio em alta velocidade e parou bruscamente, freando como em uma perseguição perigosa. O veículo não foi corretamente estacionado e ficou no meio da rua, na diagonal, e desceram três policiais (dois homens e uma mulher).
Assustada, observei o que acontecia sem saber realmente como reagir. Inicialmente pareceu uma abordagem de “rotina” da PM, quando “reconhecem” perfis perigosos, como os jovens que estavam bebendo naquela Praça. Sim, o perfil preferido da polícia: jovens, negros e pardos, com trajes fora dos padrões e “aparência de meliantes”.
Após aquela abordagem, na qual jogavam os objetos de um dos jovens de maneira agressiva no chão, pegaram este mesmo jovem e carregaram para perto da viatura. Momento de pânico! Será que ele seria preso? Seria espancado? Seria morto? Ele foi segurado pela gola e empurrado na lateral direita do carro por um dos policias, enquanto o outro ficava próximo e a PFEM batia a porta do camburão, em explicito ato de violência psicológica. Após bater a cabeça do jovem no vidro por duas vezes, entre palavras que não pude ouvir, ele foi “liberado” com um tapa na cabeça.
Felizmente, creio que a nossa presença na Praça tenha constrangido levemente os policiais e evitado algo pior. É o que coloco como hipótese diante da assustadora violência da Polícia e a falta de pudor para fazer tais atos extremamente abusivos em pleno espaço público. Sabemos que em locais desertos e nas cadeias acontecem situações que nem imaginamos, conforme constantes denúncias e relatos. Esse é o perfil da Polícia, desse Aparelho de Repressão do Estado.
Em sua clássica obra “Ideologia e Aparelhos Ideológicos do Estado”, o francês Louis Althusser nos ensina que o Aparelho de repressão do Estado utiliza da violência (física ou não) e não da ideologia para conseguir o que deseja, apesar de que a violência é uma maneira de manter a ideologia dominante. Assim, percebemos que a violência policial é uma ação estatal, ou seja, uma violência institucional, presente cotidianamente.
Tal atitude dos PMs desmoraliza cada dia mais a polícia, que para as pessoas de senso comum, deveria “proteger a população. Ora, o papel da polícia é esse: garantir a reprodução e manutenção do status quo, incluindo o extermínio de uma parcela da população enquadrada como perigosa a partir de valores burgueses ou da ideologia dominante, como preferir.
Lamentar tal fato diante da consciência de que ele faz parte dessa estrutura de poder estabelecida não adianta. E isso me leva a reforçar de que é preciso radicalizar na tomada de poder pelo povo para acabar com tais situações de violência, para transformar o Estado em aliado da população, modificando totalmente sua infraestrutura, até o seu fim. Nada mais atual do que o comunismo diante de tal fato.


segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Mandela e Fidel, relação especial

Por Cauê Seignermatin Ameni
 
 
Mitos do século XX, governantes da África do Sul e Cuba inspiraram-se mutuamente.
Para Mandela, presença cubana na África foi vital contra apartheid


Um Nelson Mandela adocicado, quase insosso, emergiu dos noticiários horas depois de morrer. Especialmente no Brasil, aponta-se o líder sul-africano como uma espécie de unanimidade, alguém que dirigiu o desmonte do apartheid quase sem enfrentar oposição. Neste sentido, ele seria o antípoda de gente como… Fidel Castro — este, rancoroso, ranzinza e ressentido. Publicado hoje, um texto de Hirania Luzardo, editora senior do Huffington Post, mostra que tal visão é absolutamente fictícia. Além de manterem longa amizade pessoal, Mandela e Castro inspiraram-se mutuamente e cooperaram de forma intensa.
 
O triunfo da Revolução Cubana, de 1959, inspirou o jovem Mandela a articular o braço militar do Congresso Nacional Africano (ANC/CNA). Denominada Lança da Nação (Umkhonto we Sizwe, na língua zulu), foi fundada 16 de dezembro, junto ao Partido Comunista da África do Sul, como resposta à sistemática opressão política, social e econômica movida contra a população negra, mestiça e indiana da África do Sul pelo regime político do Apartheid. Ou seja: Mandela compreendeu que a conquista de igualdade racial exigiria ruptura radical com o status quo. 

Além disso, a presença militar cubana no sul da África contribuiu com a queda do regime de apartheid. Entre 1974 e 1980, logo após a independência de Angola, cerca de 300 mil soldados cubanos foram enviados à região, em apoio ao governo recém-formado em Luanda — que sofria ameaça de tropas ligadas à vizinha África do Sul e EUA. Esta presença debilitou militarmente o exército racista sul-africano. Em paralelo, Cuba participou com brigadas militares e médicas em diversos países africanos. De tal sorte que, a primeira campanha de vacinação contra a poliomielite realizada no Congo, foi organizada por médicos cubanos – décadas antes do Brasil fazê-lo.
 
Após sair da prisão (em 1990), a primeira ação de Nelson Mandela foi visitar Cuba, no ano seguinte, para expressar sua admiração e respeito pelo regime do país. ”Quem treinou o nosso povo, quem nos forneceu recursos, que ajudaram tanto nossos soldados, nossos doutores?” perguntou Nelson Mandela a Fidel Castro durante sua visita a Havana. “Quando você vem nos visitar?”.
 
Isso ocorreria em 1994. Nelson Mandela elegeu-se presidente na primeira eleição democrática após o desmantelamento das leis discriminatórias. Fidel foi convidado de honra à cerimônia de posse. E ouviu um elogio sentido: “O que Fidel tem feito por nós é difícil descrever com palavras. Primeiro, na luta contra o apartheid, ele não hesitou em nos dar todo tipo de ajuda. E agora que somos livres, temos muitos médicos cubanos trabalhando aqui”.
 
A relação diplomática formal entre Cuiba e África do Sul foram estabelecidas em 11 de maio. Em toda África, há cerca de 4 mil médicos cubanos. Para o aniversário de 90 anos de Mandela, Fidel enviou uma mensagem parabenizando-o:
 
“Glória á ti, Nelson, que passou 25 anos na prisão defendeu a dignidade humana! Calúnia e ódio não puderam fazer nada contra a sua resistência de aço. Você foi capaz de resistir e sem saber, ou almejando ser, você se tornou um símbolo do que há de mais nobre na humanidade. Você vai viver na memória das futuras gerações, e na memória dos cubanos que morreram defendendo a liberdade de seus irmãos em outras terras do mundo “.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

JULGAR, CONDENAR E FORMAR OPINIÃO: A MÍDIA E A CRECHE PRIMEIROS PASSOS

Por Shirley Pimentel de Souza



Na terça-feira dia 19/11 quando fui buscar meu filho na Creche Escola Primeiros Passos, em Barreiras/BA, fui surpreendida com a notícia de que a Creche havia sido denunciada por maus tratos a uma criança. Minha surpresa se deu principalmente pelo fato de minha análise enquanto pedagoga e principalmente enquanto mãe, ser muito positiva acerca do trabalho desenvolvido por aquela instituição. Assim, não dei tanta importância ao fato no primeiro momento. No dia seguinte ao ouvir os relatos das pessoas sobre a reportagem comecei a ficar apavorada e resolvi assistir ao vídeo. De fato não era a atitude mais adequada pedagogicamente para educar uma criança que cometeu alguma indisciplina, mas estava longe de ser a cena descrita no texto da reportagem que enfatizava que a criança havia sido “amarrada e deixada sozinha em um quarto escuro” ou título da reportagem em alguns blogs que dizia “crianças são privadas de alimentação e amarradas em creche”. As pessoas que me abordaram para falar do assunto já vinham com uma posição de condenação da creche sem sequer ter ouvido outras versões da história. Como estava achando tudo aquilo muito estranho a única coisa que eu respondia era “gente, meu filho adora a creche. Vamos analisar com calma pra não fazer julgamento errado”.


No dia 21/11 foi feita uma reunião com as famílias dos estudantes para esclarecer os fatos e, na minha avaliação, ficou bastante evidente a armação que foi feita para criar o “show midiático” que se tornou o caso. Não quero aqui fazer uma defesa da Creche em questão, visto que a polícia, que é o órgão oficial que tem autoridade no assunto, ainda está investigando o caso. Porém, alguns elementos me chamaram a atenção e quero destacar aqui dois deles: O primeiro elemento que me deixou intrigada e que me motivou a escrever este texto foi a forma como os jornais virtuais e blogs da região trataram o tema, no geral apenas reproduzindo a notícia apresentada pela Rede Globo. Destaco este ponto, visto que uma das características destes meios de comunicação alternativos é justamente a de mostrar pontos de vista negados pelos meios de comunicação de massa, em especial a televisão, que historicamente tem posturas unilaterais e com interesse na notícia mais vendável e não necessariamente na realidade dos fatos. Deste modo, é importante refletir sobre a confiabilidade na informação que nos é passada pelos diversos meios de comunicação, visto que, como neste caso, mais de vinte blogs copiaram os textos uns dos outros, fazendo pequenas modificações de palavras e simplesmente reproduzindo uma versão da notícia, alguns exagerando nos elementos apresentados e outros fazendo juízo de valor. Assim, o fato que inicialmente ocorria com uma criança específica foi generalizado e colocado no plural (crianças). No decorrer da reprodução da notícia, além de amarradas em quartos escuros as crianças também eram privadas de água e alimentação. E tudo isto ocorria regularmente e até então nenhum pai ou mãe havia percebido nada de anormal com seus filhos. Isto no mínimo é uma situação muito estranha de se conceber.

O segundo elemento que me chamou a atenção se refere à polêmica que se levantou acerca da indisciplina quando a creche evidenciou que, ao cometer alguma indisciplina, a criança “perde o direito” e é colocada no “cantinho do pensamento”. Tanto na reunião com as famílias, quanto nas conversas com outras pessoas sobre o assunto, as opiniões não são as mesmas sobre as formas de disciplinar as crianças e no geral os discursos são carregados de senso comum e também de preconceitos sobre a temática. Ouvi comentários que vão desde “isto é falta de surra” até “criança nesta idade não tem noção do que faz”. No geral os comentários demonstravam estilos educativos ou muito autoritários ou muito permissivos, sendo ambos bastante problemáticos, visto que não dão oportunidade para que a criança crie autonomia nem compreensão das regras sociais necessárias à convivência em sociedade. A temática da (in)disciplina é muito ampla e complexa e envolve estudos na área da psicologia, da pedagogia e ainda outras como a sociologia e a história. Assim, gostaria apenas de chamar a atenção para a necessidade da parceria entre família e escola, pois mesmo cada uma destas instituições tendo papeis bastante específicos no processo de formação da criança, existem intercessões nestes papeis que precisam ser compartilhadas, debatidas e definidas com clareza, visto que trata-se da atuação das principais instituições educativas da criança (família e escola). Então cair no discurso de culpar uma ou outra não resolverá o problema.
Para finalizar gostaria de destacar o quanto é preocupante o fato de nos informarmos e formamos opiniões a partir de visões unilaterais apresentadas pela mídia e em especial a mídia televisiva. Assim, seria importante que praticássemos mais frequentemente a nossa capacidade filosófica de questionar frente às informações midiáticas: a quem interessa esta notícia, neste formato que está sendo posto? Qual o contexto social, cultura, político, econômico e espacial que o fato aconteceu? O que está sendo apresentado condiz com a verdade? A verdade tem apenas uma face ou várias? Posso julgar e condenar a partir apenas do que me foi apresentado por esta mídia? Creio que estes são apenas alguns dos questionamentos que precisamos fazer antes formar opinião sobre qualquer fato apresentado pela mídia, seja ela qual for, inclusive esta que você esta utilizando agora para ler este texto. Não existem verdades absolutas e sim perspectivas da realidade.