Por Paula Vielmo

A nossa viagem foi longa. Saímos de Salvador na segunda (28) por volta de 10h da manhã e chegamos em Brasília quase 13h do dia seguinte. Muita gente! Diversidade de cores, idades, vestimenta, agrupamentos políticos. Uma programação também diversificada de acordo com o segmento: nós da Educação Pública tivemos uma aula sobre auditória da dívida e PEC 55 com Maria Lúcia Fattorelli, em frente ao MEC. Em seguida, às 16h começou a concentração no Museu Nacional e a partir das 17h marchamos em direção ao Congresso Nacional.
Eu já havia participado de um ato em Brasília, que marchou até o MEC, mas nunca antes até o Congresso. Estava bastante empolgada e animada, afinal estava rodeada de milhares de pessoas (dizem entre 30 e 50 mil), gritos de ordem criativos, blocos por agrupamento (sindicatos, organizações estudantis, centrais sindicais), cartazes diferentes de tudo o que eu já havia visto, performances na rua, música, batucada, luta e alegria.
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Foto: jornalistas livres |
Chamou minha atenção que as pessoas mais jovens usavam bastante o corpo para se manifestar: muitas frases de "Fora Temer" escritas pelos corpos, adesivos de protestos cobrindo os seios nus, trans, gays afeminados, embaralho do padrão visual de gênero. Tudo lindo!
A marcha transcorria pacificamente até a chegada no Senado. Não demorou mais do meia hora pelas minhas contas e já estávamos correndo das bombas de gás lacrimogênio e de pimenta que tomaram conta do espaço.
Houve confronto de alguns poucos manifestantes com a PM, que de maneira absurdamente desproporcional jogou spray de pimenta no rosto de uma jovem que se manifestava no espelho d´ água do Congresso. Ninguém me contou, eu vi!
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Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ Agência Brasil |
Eu estava com o meu colega de campus do IFBA, Fábio Bordignon e na correria nos perdemos. Por alguns instantes eu só corri, até encontrar outra colega do IFBA e logo em seguida mais duas colegas e um estudante. O estudante, dizendo-se experiente em confrontos com a Polícia, foi o nosso guia. Não seguimos com a multidão, mas por fora dela.
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Foto: Agência Brasil |
Estava aflita. No caminho muitas pessoas (sobretudo mulheres), desmaiadas, sendo carregadas, vítimas da truculência da PM. Olhei para o alto e vi as bombas descendo. Estrondo no solo, barulho horrível, pavoroso. Correria. Mulheres, idosas, jovens, algumas crianças.
O carro de som pedia que a polícia parasse e pedia que quem tivesse leite de magnésia prestasse socorro aos demais. Haviam pontos de pessoas da área da saúde auxiliando. Eu, lá aflita. A sensação de impotência é sempre indescritível. A garganta começou a fechar e os olhos a arder. A camiseta serviria como recurso para proteger um pouco e dar condições para respirar.
Milhares de pessoas correndo. Olhei para o alto para procurar o som e vi alguns helicópteros sobrevoando. Eles jogavam bombas de gás lacrimogênio e pimenta do alto. Estava insuportável e a quantidade de pessoas passando mal aumentava.
Estávamos caminhando devagar quando três policiais se aproximaram e nos mandaram subir. Obedecemos. Atravessamos a rua de algum dos Ministérios. Outro grupo de policiais se aproximava, não sei quantos precisamente. Um deles gritou "desce porra". Havia uma escadinha estreita e foi por ela que nós e muitas outras pessoas desceram. Eu estava perdida. A sorte foi a colega que sabia o caminho e segurando na minha mãe disse para seguirmos.
Chegamos até o Museu Nacional. Precisávamos achar o restante da nossa caravana. O carro de som anunciava para nos reorganizarmos para retomar o ato. Eu queria ir. Fui. Estava impossível permanecer...a Polícia avançava e com ela a violência e as bombas de gás lacrimogênio. Não dava pra respirar. Fomos até a rodoviária em busca de nosso ônibus. Muitas pessoas correndo e a polícia avançando. Ficava cada vez pior para respirar por causa do gás. Os olhos ardiam e já não conseguiam ficar abertos sem lacrimejar.
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Foto de autoria desconhecida, tirada de dentro do senado. |
Encontramos um grupo de estudantes da nossa caravana. Uma tomada possibilitou ligar o celular que havia descarregado e ligar para alguém e saber onde estava o nosso ônibus. Todo mundo estava bem. Fomos embora, retornando para as nossas casas.
Desde a terça-feira que não paro de pensar no acontecido. A violência da polícia, a desproporcionalidade do ato, o enfrentamento, o nosso despreparo para o conflito apenas com nossas faixas, cartazes e gritos de ordem. As pessoas passando mal.
Nunca estive em um campo de guerra, mas me senti em um naquele 29 de novembro.
Enquanto éramos agredidos, os senadores votavam a proposta que vai ferrar o povo brasileiro por 20 anos! Demorei para escrever porque não conseguia expressar o que aconteceu lá. Ainda não digeri. Não aceito a ideia de naturalizar o que aconteceu. Nenhuma delas. A luta continua!
1. Não tenho nenhuma foto de minha autoria porque o celular descarregou
2. Fotos disponíveis no site do SINASEFE: Clique AQUI
3. Vídeo do Mídia Ninja: Clique AQUI
4. Nenhuma foto ou vídeo é como vivenciar.
Eu já experimentei por algumas vezes os seus relatos em BSB. Ali, bem ali na explanada dos Ministérios; movimentos organizandos que "oferecem riscos" são hostilizados e reprimidos pela mídia e pela força policial.
ResponderExcluirJosué, podemos perceber explicitamente o tratamento seletivo e extremamente violento adotado com a esquerda :(
ExcluirO mais triste é ver a diferença no tratamento das manifestações... com menos de uma semana de diferença. Como se fosse uma manifestação do bem e outra do mal. Não sei nem mais o q dizer.
ResponderExcluirQue bom que VOCÊ percebe essa diferença no tratamento. Podemos vê-la em relação à imprensa hegemônica, principalmente tv e em relação ao aparato policial. E sem dúvidas, a repressão com os movimentos de caráter de esquerda são os que sofrem :(
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